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‘Desonra’: Meu erro se chama solidariedade

Luiz Zanin Oricchio

01 de maio de 2008 | 20h38

O diretor Masahiro Kobayashi constrói, em Desonra, que estreou ontem nos cinemas, seu drama em cima de fatos reais. Ou melhor, de um fato real, e bem marcante e estranho. Em 2004, uma jovem, Yuko (Fusako Urabe), decide se apresentar como voluntária para um programa humanitário no Iraque. Na volta ao Japão, passa a ser discriminada. Sua família também sofre com isso. O pai perde o emprego na empresa na qual trabalhava havia vários anos. A mãe entra em parafuso. Tudo começa a se deteriorar e a desmoronar. Yuko, em sua desgraça, passa a contaminar a todos que a cercam, como se tivesse se tornado uma espécie de pária em sua comunidade.

Kobayashi prefere contar essa história como se fosse fábula moral. E o faz com linguagem cinematográfica das mais secas e despojadas. Há quem não goste de cinema despojado, associando-o a tédio ou a cinema pobre. Ao contrário. No caso de Desonra, essa linguagem simples apenas intensifica o drama de Yuko e lhe empresta sentido.

A fábula moral de que trata Kobayashi parece muito menos simples de decodificar, pelo menos à primeira vista. Ora, Desonra é um pequeno ensaio sobre a intolerância, no momento inicial. Temos uma jovem que, por ter andado fora da linha (quer dizer, dos padrões aceitos por uma comunidade) passa a ser discriminada de uma forma até um tanto kafkiana, com um sentido de absurdo não negligenciável. Porque, afinal, qual é a culpa de Yuko? Ter se solidarizado com outro povo, que não é o seu? Parece que sim. Um dos personagens lhe diz isso diretamente: ‘Por que se preocupar com os outros quando aqui há tantos problemas.’

E essa passa a ser a pergunta que impulsiona o filme. Devemos nos interessar apenas por aquilo que acontece em nosso quintal, ou fazemos parte da humanidade como um todo? Doar-se aos outros, fora de sua comunidade pode ser uma atitude desonrosa? A ética nas relações só existe entre iguais? Ajudar a alguém que o consenso considera inferior, torna inferior também a quem pratica o ato de ajuda?

Mas talvez não sejam essas grandes questões filosóficas e humanistas que comovem uma moça simples como Yuko, e sim o sentido de sua própria existência. Quando ela nota que, em seu país, e mesmo em sua própria aldeia, a sua vida não tem qualquer importância para ninguém, diferentemente do que acontece no Iraque, Yuko pode encontrar resposta para suas perguntas. A comunidade da qual se faz parte é aquela na qual se tem importância, na qual você conta para alguma coisa.

Quando alguém desaparece como um zero à esquerda e passa a ser estrangeiro em seu próprio país, talvez seja a hora de mudar. Esse é o estranhamento maior proposto por este belo filme. Não busque nele muitas certezas. Apenas essa sensação de incômodo criativo, que pede mais o aprofundamento das perguntas que o conforto das respostas. Entre outras coisas, reflete sobre a problemática noção de nacionalidade nesse mundo cada vez mais interligado e, em muitos sentidos, também cada vez mais cindido.

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