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Desobediência e bom humor

Luiz Zanin Oricchio

09 de dezembro de 2006 | 14h56

Stephen Frears passou por aqui como um foguete e deixou ótima impressão – afinal, é um inglês bem humorado numa terra em que o bom humor não apenas é cultivado como virtude, mas funciona como peça fundamental para a sobrevivência. Frears apresentou seu filme com as seguintes palavras “Não creio que Tony Blair tenha algum dia vindo a Havana e sei que Bush nunca pôs os pés aqui. Mas agora a rainha da Inglaterra finalmente chegou a Havana no teatro Karl Marx…Me agrada estar com a Rainha e Marx juntos, num exemplo de convivência pacífica”. Com tal apresentação, Frears preparou terreno para seu filme The Queen, que realmente é ótimo e foi recompensado com um ruidoso aplauso quando terminou 97 minutos depois.

Frears é bom exemplo de como o humor pode ajudar a viver. E essa virtude não é artigo que falte aos cubanos, que passam e passaram por muitas dificuldades e até por isso mesmo sabem o valor do riso para a convivência humana. O Brasil também já foi assim, e talvez ainda seja, mas anda exasperado demais para o meu gosto, em especial depois da campanha eleitoral. Esta minha viagem a Cuba tem me ajudado a refletir sobre isso. Noto que, a cada vez que alguém fala de Cuba, se espera um julgamento engajado e imediato, pró ou contra, como se ainda vivêssemos no Fla-Flu ideológico da guerra fria. Então, há os leitores que se irritam se não se fala mal de Cuba e há os leitores que se irritam à menor crítica. Vamos deixar disso e começar a pensar com a nossa própria cabeça, sem preconceitos, por favor. Caso contrário, não adianta nada viajar, pois já temos todas as certezas na cabeça e podemos pontificar sobre tudo e todos no conforto do nosso sofá.

Por enquanto, o que vejo aqui é um país cheio de problemas, em especial de infra-estrutura, mas também cheio de uma energia vital que não tenho notado no Brasil, por exemplo. Uma vontade de fazer as coisas, de construir, de inovar, que nós também já tivemos um dia e aparentemente esquecemos, ou arquivamos, já que estamos ocupados em combater uns aos outros e não sobra mais energia para nada. Isso vai passar, espero. Como outras coisas irão passar, também aqui em Cuba, e não vejo nenhum sinal de desespero. Pelo contrário, o sentimento é mais otimista que pessimista, pois as mudanças parecem bem-vindas e ninguém acredita em transição violenta. A história dirá.

Escapando um pouco das minhas obrigações de jurado, consegui ver um documentário chileno chamado Desobediência, de Patrício Henriques. É um belo filme antimiliarista, sobre membros das forças armadas que ousaram desafiar ordens quando estas iam contra suas consciências. Há um soldado americano que se recusa a voltar ao Iraque e participar daquela barbárie e enfrenta a Corte Marcial. Há o general chileno que se recusa a obedecer cegamente a carnificina de Pinochet no 11 de setembro da América Latina, que foi o 11 de setembro de 1973, quando Allende foi derrubado. E há o militar israelense que, de olhos baixos, confessa ter mais de mil mortes nas costas, mas não obedece quando lhe é ordenado reprimir as populações palestinas dos territórios ocupados. É um filme sobre a questão de consciência. Um desses “desobedientes” diz, de maneira lúcida, que há que fazer a distinção entre o combate e o crime de guerra. Lembra que, em Nuremberg, depois da Segunda Guerra Mundial, ficou estabelecido que obedecer ordens superiores não era motivo suficiente para absolver ninguém. Em toda questão política, ou militar (o que dá no mesmo), sempre sobra a nossa consciência como juiz final de uma ação. Ou assim deveria ser.

obs. Me desculpo se nao estou blogando com a frequencia que gostaria, ou nao estou respondendo a algumas perguntas que surgem nos comentarios. E que esta muito dificil usar a internet aqui. O hotel esta lotado, ha poucos pontos e espera. Se quiser ficar na internet nao faco outra coisa na vida. E saio de Cuba mais pobre do que ja sou, pois a conexao custa uma nota preta. Abracos a todos e todas.

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