Desejo e Reparação: obra-prima ou filme adocicado?
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Desejo e Reparação: obra-prima ou filme adocicado?

Luiz Zanin Oricchio

11 de janeiro de 2008 | 19h35

Outra discordância aqui: a maioria adorou essa adaptação do livro de Ian McEwan por Joe Wright. Eu, não. Me decepcionei. Parece filme feito de propósito para ganhar Globo de Ouro, Oscar, essas coisas. Cinemão “de qualidade”, como diziam os franceses. Mesmo assim tem interesse. Agora, obra-prima, como andam dizendo…Vamos falar sério, tá? Eis aí meu texto para o Caderno 2 de hoje.

desejo

As primeiras cenas de Desejo e Reparação prometem um filme suntuoso – no melhor sentido do termo. O que temos é uma hábil alternância de pontos de vista sobre o mesmo acontecimento, com uma câmera que também testemunha os pouco amistosos relacionamentos de classe na sociedade inglesa. Esse é um ponto forte, pois, afinal, o personagem Robbie (James McAvoy) é filho de um empregado e, portanto, ‘inferior’ à sua amada Cecilia e também a Briony. Esse é um aspecto da trama, e não é preciso acreditar em luta de classes, como conceito marxista, para que a história faça sentido.

De fato, essa questão dos desníveis sociais interferindo nas relações amorosas é um tema recorrente na literatura e vai do próprio romance original de Ian McEwan, traduzido simplesmente como Reparação, até o clássico Lady Chatterley, de D.W. Lawrence, que recebeu magnífica adaptação da francesa Pascale Ferran.

Mas não é esse o sujeito principal do filme e sim um aspecto de ordem pessoal, e que envolve a possibilidade de fazermos mal aos outros a um ponto em que esse dano se torne irreversível. Esse aspecto, costurado em filigrana, está presente no trabalho de Joe Wright, talvez não com a profundidade desejada (e presente no romance) mas, de qualquer forma, digna.

É pena que, na segunda parte, Wright tenha optado de forma aberta pelo melodrama ‘de qualidade’, o que desequilibra o projeto. Nada contra o melô. Uma coisa é você assumir o melodrama desde o início, não apenas como opção ‘ad hoc’ mas como filosofia de vida, como faz às vezes o mexicano Arturo Ripstein e, sempre, Pedro Almodóvar. Outra é mudar o registro no meio do caminho, provavelmente para tornar o conjunto todo mais palatável para o público médio, e para o Oscar. E assim prossegue a trama, de maneira meio cansativa, até uma reviravolta final, que não pode ser revelada. Enfim, um truque ficcional que não deixa de ser inteligente e joga com o temor e a esperança do público.

A opção pelo ‘emocional’, no entanto, acaba por pesar nas cores. E nos sons. O compositor da trilha, Dario Marinelli, constrói a sua trilha sonora sobre o ritmo de uma máquina de escrever porque, afinal, se trata – também – de uma história sobre escritores, ou sobre um escritor em particular, que se divide entre a mera rememoração e a invenção ficcional. Acontece que Marinelli injeta dose brutal de açúcar em sua música, o que não apenas a torna ineficiente, como cansativa e redundante. De certa maneira, a música apenas expressa a orientação geral do projeto, que visa a provocar emoção a qualquer preço e não confia na capacidade do espectador em detectar sutilezas e sensibilizar-se com elas.

(Caderno 2, 11/1/08)

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