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Desconstruindo Hoover

Luiz Zanin Oricchio

28 Janeiro 2012 | 10h25

J. Edgar não é um filme político, pelo menos não no sentido tradicional que se atribui ao gênero. Ao invés de debruçar-se por completo sobre a persona pública do personagem, Clint alterna os planos do público e do privado. Coloca-os em diálogo e faz com que um corroa o outro. Seu foco se dá numa zona intermediária de estrutura dupla, tornada clássica por Orson Welles em Cidadão Kane – a do homem de poder, miserável em sua vida privada.

Em entrevistas, Clint não esclarece de todo o alcance do seu filme. Confessa que admira Hoover por sua disposição ao trabalho, sua energia sem fim, seu engenho e inteligência na criação de novas formas em sua atividade. Ao mesmo tempo, o censura porque obviamente abusou do poder conquistado. E esse é um tema contemporâneo – e abertamente político, o do abuso do poder. Vê-se, de vislumbre como Hoover manipula os poderosos para que ele próprio se mantenha no topo. Faz gravações ilegais, intercepta correspondência e tem imenso gosto por isso, manifesto na leitura da carta de amor endereçada pela esposa de Roosevelt a outra mulher, sua namorada. Que efeito não teria a revelação do amor lésbico de um político na América daquele tempo? E que efeito não teve sobre o próprio Hoover, cuja ambiguidade sexual o leva a travestir-se, numa cena de grande impacto?

Essa a estratégia de Clint – desconstruir o mito jogando com a diferença entre sua face pública e a esfera privada. Um jogo de luz e sombra expresso no registro visual do filme, que se deve ao fotógrafo Tom Stern. A maneira como Stern fotografa, em especial o rosto de DiCaprio, expressa essa duplicidade que não quer se entregar de todo, que vive em parte na luz e em parte na sombra. Há algo nesse tom do registro de Gregg Toland em Kane e também de Gordon Willis em O Poderoso Chefão. Na estética publicitária padrão, que tomou conta do cinema e expõe todos os desvãos à luz, as opções de Clint parecem mais que destoantes. Subversivas, mesmo.

Como destoante parece sua maneira geral de compor o personagem, isto é, de pensá-lo. Controverso, Hoover dificilmente seria objeto de uma hagiografia, aquele tipo de perfil de lado único com finalidade explícita de elogiar, santificar ou reabilitar. Seria mais fácil demonizá-lo, à luz dos ideais democráticos de clareza e transparência, lindos, porém nunca atingidos. Clint prefere evitar essas duas facilidades. Leva em conta a opacidade da busca pelo poder e vê Hoover como um ser forte e fraco, grande e minúsculo ao mesmo tempo.

Sempre é mais fácil atribuir aos  monstros  a presença do mal no mundo.  Mais complicado é ver  no mal, como no bem, manifestações do humano, de seres que partilham nossa matéria frágil e mesmas  circunstâncias históricas.