Desconhecido
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Desconhecido

Luiz Zanin Oricchio

02 de março de 2011 | 16h24

No início parece uma daquelas parábolas sobre o acaso e sua ação na vida dos homens. O médico Martin Harris (Liam Neeson) chega a Berlim com a esposa (January Jones), para um simpósio de cientistas. Ao fazer o check-in no hotel, descobre que perdeu uma valise. Toma um táxi às pressas e tenta voltar ao aeroporto. Há um acidente. Martin entra em coma e, quando desperta, nota que sua vida está de pernas para o ar. Alguém assumiu a sua identidade e está hospedado no hotel, em companhia de sua mulher. Ninguém, senão ele, estranha a troca e todos o tratam como impostor. Sente-se no meio de um pesadelo.

O filme é dirigido por Jaume Collet-Serra (de A Órfã) e pode-se dizer que tem clima. Pelo menos em seus passos iniciais. O problema, para Martin, será desmascarar o falso dr. Harris (Aidan Quinn). Além disso, tentar entender o que está por trás dessa misteriosa troca. A não ser que esteja ficando maluco e os outros é que tenham razão em desconfiar dele. Em sua busca pela verdade, Martin é auxiliado pela taxista que provocou o acidente, a imigrante Gina (Diane Kruger). E também por um ex-agente da Stasi (a polícia secreta da antiga Alemanha Oriental), convenientemente interpretado por Bruno Ganz.

Conveniente, porque, se existe uma trama na Alemanha, ninguém melhor do que Ganz para lhe dar credibilidade. Afinal, o homem tem em seu currículo o cult Asas do Desejo e já interpretou até mesmo Adolf Hitler em filme polêmico que ousa humanizar a figura mais odiada do século 20. Ganz é grande ator.

Assim como Liam Neeson que, no entanto, não resiste muito tempo aos descaminhos impostos pela trama de Desconhecido. Se, no início, o clima e estilo de filmagem sugeriam a imersão no mundo fantástico do duplo (o outro eu, um pavor recorrente da humanidade e otimo tema da literatura), logo o caminho a ser percorrido se revela diferente.

Isso porque as opções de Collet-Serra são bem outras. Ele deseja diluir o mistério inicial numa solução lógica, de modo que precisará imaginar uma trama escabrosa, que envolva manobrs econômicas das multinacionais de alimentos e seu interesse em manter a escassez do mercado – porque afinal é o que conserva os preços, etc. Também esta seria uma opção interessante, não fosse, mais uma vez, a opção deliberada pela superficialidade.

São escolhas que traduzem uma orientação da obra, e a empobrecem. O excesso de perseguições de automóveis e de cenas de ação mostra que Collet-Serrat não se conformava em trabalhar com temas “sérios” sem lhe dar uma roupagem comercial. O que é essa roupagem senão essas figuras de estilo necessárias para o block-buster como as cenas de ação exageradas, as perseguições, os tiros, etc? Tudo bem, se o conjunto não parecesse tão deslocado em relação às propostas iniciais. Acaba por soar falso.

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