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Dercy

Luiz Zanin Oricchio

21 de julho de 2008 | 13h20

Fiquei devendo um post sobre Dercy Gonçalves, que morreu no sábado com 101 anos. Bem, acontece que eu estava em Santos, ouvindo chorinho na praça, quando avisaram a morte de Dercy. Voltei correndo para casa, porque sabia que o jornal ia querer alguma coisa sobre ela. Não deu outra. Escrevi correndo, não consegui conexão, tive de ditar a matéria por celular e mesmo assim não entrou na edição de domingo, porque o texto chegou atrasado. Sai amanhã no Caderno 2 e depois coloco aqui.

Por enquanto, fica o seguinte. Dercy, com seu jeito desbocado, era mesmo engraçada. Vinha do burlesco e da chanchada, gênero muito mal visto por intelectuais até ser reabilitado por Sérgio Augusto em seu belo livro Esse Mundo É um Pandeiro. Era uma vida brasileira aquela, que já não existe mais. Um tipo de humor malandro, sinuoso. Há um ator que adoro naquelas comédias, tirando Oscarito e Grande Otelo, que eram enormes: refiro-me a Zé Trindade. Mas Zé era um rei do subentendido, enquanto Dercy jogava de outra maneira e dizia tudo às claras.

Como bem notou Ari Fontoura, ela criou uma verdadeira contradição em termos que é o palavrão carinhoso. Ninguém se sentia ofendido por eles. E, nesse papel de sempre, Dercy aparece pela última vez na tela em Nossa Vida não Cabe num Opala, de Reinaldo Pinheiro, como uma vovó que repele um assalto com revólver na mão e impropérios na boca. Vi Dercy, pela última vez, no Festival de Paulínia. Parecia bem, para uma pessoa com cem anos nas costas. Continuava com a boca suja. E alegre, até o fim.

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