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Dercy em Paulínia: a última aparição de uma rainha

Luiz Zanin Oricchio

22 de julho de 2008 | 14h03

A reportagem do Estado esteve presente a uma das últimas aparições públicas de Dercy Gonçalves. Foi no recém-encerrado Festival de Cinema de Paulínia, quando a atriz recebeu homenagem. Desbocada, Dercy subiu ao palco para receber o troféu e agradeceu desejando um beijo na b… de todos os que estavam no Theatro Municipal da cidade. Disse ainda que estava surda para c… e que, então, era para não prestarem atenção nas bobagens que pudesse cometer. Todo mundo riu e aplaudiu demais. Assim era Dercy, que morreu sábado com 101 anos de idade.

Presença constante no cinema e no teatro, desde os anos 30 e 40, e na tevê, desde o seu início nos anos 50, Dercy era parte da vida brasileira. Tendo como origem o teatro burlesco e o rebolado, registrou patente do humor ao mesmo tempo brejeiro e desbocado, não hesitando em apelar para o calão quando achasse conveniente – isto é, quase sempre.

No cinema, em particular, Dercy brilhou num gênero tão brasileiro quanto a caipirinha e a feijoada – a chanchada. Está em alguns clássicos do gênero, como A Baronesa Transviada (1957), Cala a Boca, Etelvina (1959) e Minervina Vem Aí (1959). Seu modo de ser, a maneira como se comportava em cena, a voz esganiçada, compuseram uma personagem que a acompanhou ao longo da carreira.

Essa vida acabou não sendo registrada em documentário para o cinema, conforme era o projeto inicial do cineasta Ivo Branco. Ele foi substituído por um documentário para a televisão, produzido pela TV Cultura. Talvez, com a morte da atriz, o cineasta se anime a retomá-lo. Quem registrou, em formato digital, a vida de Dercy foi José Bonifácio de Oliveira, o Boni, lançando-o apenas em DVD. Dercy merece um filme completo pelo tanto que marcou a vida nacional com sua veia cômica e crítica.

Se Dercy se destacou nas chanchadas, sua imagem fica registrada também em pequenas aparições em outros filmes, e nem sempre em comédias. Trabalhou em Absolutamente Certo, de Anselmo Duarte, e também em Oceano Atlantis, de Chico de Paula, recebendo pelo papel um troféu de coadjuvante no Festival de Brasília. Suas últimas imagens no cinema, no entanto, estão impressas em celulóide, em Nossa Vida Não Cabe Num Opala, de Reinaldo Pinheiro, numa adaptação do texto de Mario Bortolotto, com estréia marcada para 8 de agosto. Nele, Dercy faz um pequeno papel, mas do qual não se esquece. Ela está dentro de um carro, que vai ser assaltado, mas resiste ao ladrão, saca de um enorme revólver, ameaça o agressor e ainda desacata, bem à sua maneira, o assaltante frustrado, vivido por Leonardo Medeiros.

Durante a homenagem, em Paulínia, o cineasta Reinaldo Pinheiro disse que trabalhar com a atriz havia sido para ele uma tremenda experiência, porque o ensinara a não temer a morte e viver cada instante como se fosse o último. Essa pequena cena, não mais do que uns poucos minutos, alivia a tensão de um filme de tonalidade trágica.

Ninguém dizia palavrão em cena como Dercy e também ninguém se ofendia com eles, porque tudo depende do tom como se fala. Seu amigo Ari Fontoura dizia que Dercy havia criado essa perfeita contradição em termos que é o palavrão carinhoso. O Brasil fica menos engraçado sem ela.

(Caderno 2, 22/7/08)

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