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Depois da maratona

Luiz Zanin Oricchio

05 de novembro de 2007 | 17h17

Ainda não fiz as minhas estatísticas de filmes vistos ao longo da Mostra. Bem, como não sou fanático, acabo nem fazendo essas contas, mas calculo ter visto mais de 40 filmes. Muita coisa ficou, mas considero que foi apenas uma primeira aproximação a alguns desses filmes.

Por exemplo, quero rever, antes da estréia, o novo trabalho dos Coen, Onde os Fracos não Têm Vez, que passou no encerramento da mostra. Adorei. Fiquei chapado pela mise-en-scène da dupla. Saí correndo atrás do livro do Cormac McCarthy no qual ele se baseia, e tem o título original No Country for Old Men. Já li mais da metade, sem parar. Mais uma sentada e adeus. Livraço, também.

Outros títulos que quero rever: Ne Touchez pas la Hache, um extraordinário Jacques Rivette, cheio de sutileza em sua aparente simplicidade.

Gostei também dos dois de Christophe Honoré, Em Paris e Chansons d’Amour, com seu diálogo (sobretudo o primeiro) com a nouvelle vague. Louis Garrel é o Antoine Doinel de Honoré. O diálogo, claro, é entre os jovens Truffaut e Godard, ambos matrizes de duas vertentes do cinema francês moderno.

A Retirada, de Amos Gitai, me pareceu uma aula de direção cinematográfica.

Gostei de Paranoid Park, de Gus Van Sant, pela sua pesquisa de linguagem, a maneira não-explicativa como trata esse misterioso universo teen, que ele já havia trabalhado em Elefante.

Dos brasileiros, o que mais gostei foi Mutum, de Sandra Kogut, mas não vi a maior parte deles. Vão estrear e serão comentados um a um.

Senhores do Crime, de David Cronenberg, é todo ele magnífico. Tem uma seqüência de luta dentro de uma sauna que é das melhores coisas que vi nos últimos tempos.

Um prêmio para qualquer cinéfilo digno desse nome: a retrospectiva completa de Jia Zhang-Ke e sua presença em São Paulo. Talvez seja o diretor que faz o cinema mais antenado na contemporaneidade.

Prêmios: pode ser uma limitação minha, mas não dou muita bola à premiação dessas mega-mostras, a do Rio e a de São Paulo. Parece que a vocação maior delas é a de painel internacional amplo, sem caráter competitivo. Festival é outra coisa, é mais concentrado e tem feitio de competição. Ainda assim, achei simpático o prêmio para O Banheiro do Papa, do nosso amigo Charlone.

E, se me permitem alguma incoerência, digo que fiquei muito contente com o prêmio da crítica para La Question Humaine, de Nicholas Klotz. Vi o filme em Paris, numa das primeiras sessões e acompanhei a polêmica em torno dele. É um filme de sobrevivências estranhas, de heranças do nazismo e, sobretudo, de métodos nazistas, agora incorporados a práticas empresariais. É muito difícil que o cinema se debruce, de maneira profunda, sobre o capitalismo contemporâneo. É o que faz Klotz, com inteligência, profundidade e senso de linguagem cinematográfica. Merten fez uma bela entrevista com ele, que sai amanhã no Caderno 2. Não deixe de ler.

Votei em La Question Humaine. Minha segunda opção era 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias. E a terceira, A Viagem do Balão Vermelho. Todos belos filmes. Espero que estréiem por aqui, com calma, para que possamos falar sobre eles com tranquilidade.

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