As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Déjà Vu

Luiz Zanin Oricchio

20 Janeiro 2007 | 10h43

Déjà vu é a expressão francesa que se refere àquele sentimento de que já vivemos o mesmo momento antes. Freud em pessoa se apropriou do termo e teorizou sobre ele. Enfim, há toda uma tradição literária e científica relacionada ao déjà vu. Ninguém em sã consciência poderia pensar que iria ser também o título de um filme de ação americano – e dirigido por Tony Scott, ainda por cima. É verdade que se trata de um filme de ação com muitas pretensões intelectuais, o que não se sabe se o desculpa, ou agrava seu caso.

O protagonista é Denzel Washington, no papel do policial Doug Carlin. Acontece um atentado terrorista em New Orleans (depois do Katrina), no qual morrem mais de 500 pessoas. Uma das vítimas, Claire (Paula Patton), no entanto, parece ter sido morta duas horas antes da explosão. Investigando o caso, Doug entra em contato com um grupo de cientistas do FBI, criador de uma parafernália que permite ver o cotidiano de qualquer pessoa, com quatro dias de atraso. Assim, é possível reconstituir, de qualquer ângulo que se queira, tudo o que se passou na cidade, com essa defasagem no tempo. E, por falar em tempo, os supercomputadores também parecem capazes, a troco de um risco considerável, de encontrar uma maneira de mandar coisas, e talvez pessoas, ao passado.

Bem, está aí aberta a possibilidade teórica, esta tão antiga quanto o rascunho da Bíblia, de voltar ao passado para interferir no presente, talvez para evitar algo desagradável que tenha se produzido e que possa ser modificado. Enfim, você pode lembrar de todas essas histórias, a começar pelo clássico A Máquina do Tempo, baseada em H.G. Wells, e terminando com o Exterminador do Futuro, com Arnold Schwarzenegger. Essas viagens no tempo, para a frente e para trás, convém lembrar, derivadas da possibilidade teórica aberta pela física moderna, a partir de Einstein.

O curioso é que Déjà Vu se propõe essa travessia por mares estranhos no sentido de prevenir algo de muito concreto – um crime, um atentado terrorista, cujas razões não ficam claras. Isso sem se lembrar (ou talvez se lembrando e em seguida se esquecendo) de um filme bem recente, e bem melhor, que trata exatamente desse assunto – Minority Report, de Steven Spielberg. Ora, nesse filme de Spielberg, a projeção era a de um tempo em que os crimes eram detectados antes mesmo de serem cometidos, e assim se podia evitá-los. Os candidatos a criminosos eram detidos antes que pudessem realizar os atos que desejavam e ficavam devidamente congelados para segurança geral da nação. Assim, eram criminosos em potencial e não em ato. Minority Report não pode nem de longe ser considerado um grande filme, talvez nem mesmo bom, mas pelo menos tinha esse mérito de colocar um discussão interessante em pauta – qual o sentido da responsabilidade se alguém é detido antes mesmo de cometer um delito? Onde fica a famosa liberdade individual, o livre-arbítrio das pessoas?

Bem, se pode dizer, essa discussão era um subproduto do filme de Spielberg. Certo, e também não é errado afirmar que um filme se mede não apenas pelo entretenimento que proporciona, mas pela possibilidade de nos fazer pensar em coisas interessantes, e talvez polêmicas, depois de assisti-lo.

E, se é esse o caso, Déjà Vu deve ser considerado pouco mais do que uma nulidade, uma vez que não temos vontade de discutir coisa nenhuma depois de vê-lo. Aliás, o desejo é de esquecê-lo o mais rapidamente possível. E não por causa de suas premissas pseudocientíficas, porque estas, bem utilizadas, podem dar um ponto de partida para a ficção.

Mas o que se nota no longa de Tony Scott é uma absoluta incapacidade de aproveitar uma idéia potencialmente interessante para desenvolvê-la com um mínimo de criatividade. Pelo contrário, o espectador deverá enfrentar uma exposição das mais intrincadas e confusas, sem que isso se justifique no contexto da história a ser contada. Não se entende, com o que tem a dizer, que Scott leve mais de duas horas (exatos 128 minutos) para contá-la. Essa duração, por mais que se diga que o tempo é relativo, não encontra justificativa interna para existir. Tudo dura demais, tudo se arrasta. Fosse mais sintético, talvez tivesse feito um filme melhor.

Mas não, Déjà Vu se arrasta, com o detalhismo de algo muito intrincado, e que no entanto parece simples demais se reduzido à sua proposta: voltar ao passado para tentar evitar algo ruim do presente. O problema é outro: é que esse tipo de proposta, se não for bem pensada, acaba caindo em ciladas insolúveis, em absurdos lógicos que tiram a credibilidade da história. Cada ficcionista que se propõe voltar ao passado para alterar qualquer detalhe precisa prever que isso trará mudanças enormes no presente. Nem sempre a história pode dar conta dessas transformações.

E então dificilmente as contas conseguem fechar nesse sentido. A não ser que se use o expediente que usou, por exemplo, o curta-metragem Barbosa, de Jorge Furtado e Anna Luiza Azevedo, que foi o de mostrar a impossibilidade de alterar a história. No caso, a final da Copa do Mundo de 1950, quando o Brasil perdeu para o Uruguai por 2 a 1. O personagem volta ao passado para avisar ao goleiro Barbosa onde a bola chutada pelo uruguaio Gigghia iria e só contribui para que o gol realmente seja feito.

Mas, claro, supor essa imutabilidade daria a Déjà Vu um caráter trágico que Tony Scott não poderia assumir num filme destinado ao grande público. Seria dizer que nada se pode fazer em relação ao que está escrito e que só podemos cuidar do nosso presente, porque o passado já foi e o próprio futuro é nebuloso e, de certa forma, incontrolável. Com suas pretensões, levadas até apenas a metade do caminho, Déjà Vu acaba sendo um discurso oco. Seu título tem valor de advertência – já vimos esse filme antes, e raramente ele termina bem.

(SERVIÇO)Déjà Vu (Deja Vu, EUA, 2006, 127 min.). Ação. Dir. Tony Scott. 14 anos. Grande circuito. Cotação: Regular