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Debatendo a violência

Luiz Zanin Oricchio

27 Novembro 2006 | 15h43

Foi legal o debate com a equipe de Baixio das Bestas, apesar de o diretor Cláudio Assis estar meio travado. Acontece que Cláudio, acho eu, é um tipo mais intuitivo, de inteligência visual, cinematográfica (também é o caso de Beto Brant), enquanto existe gente que prefere discutir o cinema do ponto de vista conceitual.

Enfim, há espaço para todo o tipo de pessoa neste mundo. De qualquer forma, como havia gente brilhante na mesa (Matheus Nachtergaele, Dira Paes, Hilton Acioly, Walter Carvalho, entre outros), a discussão pôde pode rolar, mesmo sem grande contribuição da parte do diretor. O centro da questão era: como representar a violência, que existe no Brasil real, profundo, sem por isso estetizá-la, torná-la um show, bonitinha e para consumo rápido, como acontece, por exemplo, nos filmes de Quentin Tarantino (dos quais gosto, aliás, mas por outros motivos).

Para mim, como crítico e estudioso do cinema, foi muito útil compreender como essa escolha fica no fio da navalha entre a representação necessária da violência (porque faz parte do real) e a violência apelativa. Logo depois do almoço, agora há pouco, estava vindo para o quarto escrever quando o fotógrafo Walter Carvalho veio falar comigo e com minha mulher. Ele nos disse como é importante que um filme desse tipo tenha a compreensão da crítica para que possa ser feito. E nos relatou a série de pressões que um projeto sofre dos patrocinadores até se tornar viável: “isto pode, aquilo não pode, isso não fica bem, etc”.

É um tipo de censura da qual raramente o público tem consciência. E mesmo nós, jornalistas, pouco costumamos lembrá-la. Como se o censor fosse aquele cidadão vestido de preto, do tempo da ditadura, com a tesoura na mão e unha do dedo mindinho comprida. Hoje, ele veste Armani, fala idiomas e ocupa o cargo de diretor de marketing das empresas que investem em cinema. É assim.

Portanto, para que um criador livre, como Cláudio Assis, possa se exprimir, é preciso que tenha a compreensão de que existe lugar sim para filmes bonitinhos, agradáveis, comédias românticas e tudo o que se quiser, mas também deve haver para aqueles que à primeira vista parecem desagradáveis, mas apenas porque estão nos forçando a olhar e a pensar naquilo que não queremos.