De volta a ‘Corpos Ardentes’
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

De volta a ‘Corpos Ardentes’

Filme de Lawrence Kasdan, com William Hurt e uma Kathleen Turner espetacular, conserva ainda todo o seu frescor

Luiz Zanin Oricchio

03 de fevereiro de 2017 | 14h13

corpos

Outro dia revi Corpos Ardentes, de Lawrence Kasdan. Tenho estima antiga pelo filme.

Lembro uma vez, faz muitos anos, acho que em 2000, eu estava em Brasília fazendo parte da comissão de seleção dos longas do festival. Hospedados no Hotel Nacional, convivi muito com a produtora Marisa Leão, amiga já então de longa data, e conversamos muito sobre cinema. A certa altura lembramos de Corpos Ardentes e concordamos em como o filme é belamente construído.

Acho que isso não se alterou com o tempo. Como já é quase “clássico”, acho que todo mundo o conhece. Basicamente é a história de um advogado um tanto trapalhão, muito chegado a mulheres, Ned Racine (William Hurt), e seu envolvimento com a espetacular Matty Walker (Kathleen Turner no auge da beleza). Kathleen é casada e precisa de alguém para se livrar do marido milionário e ficar com o dinheiro. Ned é o trouxa perfeito. Trata-se, portanto, de uma história de sedução e manipulação.

O engraçado é que a crítica Pauline Kael detestava esse “neo-noir” e o achava mero pastiche dos verdadeiros noir. Insulta Kathleen, dizendo algo como que ela se esgueira pelas pegadas das grandes atrizes que a precederam. Talvez pensasse, sem nomeá-las, em Laureen Bacall e Rita Hayworth, por exemplo.

Como contraponto, li a crítica de Roger Ebert dedicada a Corpos Ardentes. Ele cita Kael para contestá-la. Não concorda com quase nada das palavras da crítica de cinema da New Yorker. E tem um achado, bastante evidente, mas que precisa ser dito. Kathleen Turner parece ser exatamente aquele tipo de mulher que convenceria qualquer homem a fazer não importa o quê para ficar com ela.

Há outros detalhes que fazem o filme funcionar. Racine é tolo e talvez incompetente (em especial quando se trata da redação de testamentos), mas esperto o suficiente para bolar um crime verossímil. A graça da história está em que Matty faz Racine pensar o tempo todo que a iniciativa é dele, quando o advogado está fazendo nada mais que seguir todos os passos previstos pela mulher. Essa manipuladora maníaca tem rosto de anjo, corpo de deusa e é um incêndio de sensualidade.

O sexo ferve entre eles e a temperatura na Flórida bate recordes. Essa assimilação entre calor e sexualidade está em duas belas cenas:

Numa, Ned sai à noite para espairecer e encontra uma orquestra que toca ao ar livre. Fica um pouco por ali quando, das primeiras fileiras, sai uma mulher com vestido branco e passa por ele: é Matty, personagem de Kathleen. O plano é todo muito bem filmado. Ebert destaca que tudo na cena é um pouco escuro, pois a orquestra toca na penumbra e as pessoas da plateia estão vestidas em cores de tons escuros, vermelho, amarelo, etc. Em meio a elas, destaca-se um ponto branco, que cresce na tela e aos olhos de Ned, a figura da mulher. “A” Mulher. Penso também no ritmo. A orquestra marca um tempo que acompanha sutilmente a mulher que se levanta da cadeira, caminha enquanto uma lufada de vento levanta um pouco seu vestido, e os olhos se cruzam quando passa por Ned. Nesse momento sabemos que ele está fisgado. A cena é linda.

O outro momento é quando eles vão à casa de Matty pela primeira vez, mas ela faz com que ele saia. O calor está insuportável e vemos o suor dos corpos. Ned vê a mulher através de uma porta de vidro, enquanto o ruído daqueles sininhos que tocam com o vento (ela tem uma coleção deles na varanda) parece aumenta a um nível insuportável. A tensão sexual de Ned cresce até forçá-lo a invadir a casa e abraçar a mulher.

Essas duas cenas que descrevi são feitas quase sem palavras. Apenas cinema. Grande cinema. Na minha opinião, nunca mais Kasdan fez um filme desse nível.

PS. Claro, Corpos Ardentes é inspirado em Fuga do Passado (Out of the Past, 1947), de Jacques Tourneur, e Pacto de Sangue (Double Indemnity, 1944), de Billy Wilder, dois belíssimos noir.

 

Tendências: