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De Palma dá aula de cinema

Luiz Zanin Oricchio

25 Novembro 2016 | 13h45

De muitos filmes se diz, com certo exagero, que são “aulas de cinema”. Bem, se existe um que merece esse título, sem aspas, é mesmo este De Palma, de Noah Baumbach e Jake Paltrow. Nele, o cineasta Brian De Palma passa em revista sua carreira, da formação escolar até os primeiros sucessos junto à turma de jovens inovadores de Hollywood. Fala dos seus métodos de filmagem, de suas influências, e abre uma janela para os bastidores da indústria do cinema.
Talvez o fato de ser filmado por um colega cineasta, como Baumbach, tenha facilitado as coisas. O fato é que o diretor de Vestida para Matar e Os Intocáveis se abre mesmo para a câmera. Quase todo o tempo postado no mesmo cenário, e com pouca variação de enquadramento, fala do seu trabalho e o faz sem preocupações de didatismo, mas de maneira simples e sem grandes teorizações. Porém nunca banaliza o ato de filmar, essa arte que desenvolve nas entranhas de uma indústria poderosa, o que é tanto sua força como sua fraqueza.
Mas o documentário não se abre com imagens de De Palma ou de um dos seus filmes, mas com o clássico O Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock, que faz alguns anos desbancou Cidadão Kane como o melhor filme de todos os tempos, segundo votação de críticos do mundo todo. Opção discutível, sem dúvida, mas que dá conta da influência de Hitchcock, um trabalho que se deve, como se sabe, à devoção dos cineastas da nouvelle vague e, em especial, a François Truffaut. O fato é que De Palma é um dos cineastas mais conscientemente influenciados pelo velho Hitch e, dessa forma, um documentário sobre sua obra só poderia ser aberto com as imagens do maior filme do mestre do terror.
O fato é que a carreira de De Palma, descrita por ele mesmo, é a de um cinéfilo. E que não limitou suas influências ao cinema de seu país. Além de Hitchcock, não ficou indiferente às tendências inovadoras propostas pela nouvelle vague. A ponto de rodar um filme de sintaxe godardiana como Greetings (Saudações) em 1968. Mas Irmãs Diabólicas, Trágica Obsessão, Carrie, a Estranha e Vestida para Matar são seus diálogos com o suspense e o medo. Sabe que, para isso, o estabelecimento de um clima com o espectador é fundamental. Toda a técnica é jogada nessa construção cinematográfica.
Há alguns pontos fora da curva, um deles o fracasso de O Fantasma do Paraíso (1974), que foi execrado no lançamento. De Palma se lembra que a crítica no New York Times foi tão virulenta que provocou um efeito reverso e despertou simpatia pelo diretor em outros veículos. A influente Pauline Kael, na revista New Yorker, o defendeu. E o fez em vários outros lançamentos de filmes de De Palma. Mas ele próprio reconhece o fracasso do filme, um projeto que tinha sua origem na crítica da indústria musical, “que pasteuriza tudo” mas estabelecia relações em várias direções.
O que é um hábito e mesmo um estilo em De Palma, devidamente assumido: o recurso às referências. Não é garantia de êxito, mas às vezes diálogos como mestres produzem boas coisas. É o que acontece talvez com seu melhor filme, Um Tiro na Noite (1981), Blow Out, no original, um diálogo próximo com Blow Up, que Michelangelo Antonioni adaptou de Julio Cortazar. Neste era a fotografia ampliada que revelava um crime. Com De Palma era o som de uma explosão noturna, que poderia desvendar o mistério de um carro que cai de uma ponte e mergulha num rio. Um diálogo brilhante com outro cineasta e que não recai na reciclagem e na repetição – estilemas que De Palma não saberia evitar em outros trabalhos.

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