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No Cine Ceará

Luiz Zanin Oricchio

10 de abril de 2008 | 17h09

FORTALEZA – Já cheguei a Fortaleza. Bom vôo, no horário, serviço de bordo ok. Será que estão a fim de melhorar o relacionamento com o cliente? Bem, daqui a pouco sigo para o Cine São Luiz, na Praça do Ferreira, no Centro de Fortaleza, onde há tantos anos ocorre o festival. Agora o velho cinema mudou de nome. Chama-se Centro Cultural Sesc, ou coisa que o valha. Mas todo mundo conhece como Cine São Luiz, da vasta rede de Luiz Severiano Ribeiro, cinemas antigos, dos anos 40 e 50, luxuosos, enormes, espalhados pelas capitais do Nordeste, todos com o nome do fundador. Acho que até hoje o Severiano Ribeiro é o circuito mais poderoso do Rio de Janeiro.

Estou curioso para ver os dois filmes da noite. Elegia Friulana, de Fernando Birri, na abertura e, depois, dando início à competição, o longa-metragem Nossa Vida não Cabe Num Opala, de Reinaldo Pinheiro.
Birri é um monstro sagrado do cinema latino-americano. Fundador da Escola Documental de Santa Fé, amigo pessoal de Gabriel García Márquez e Fidel Castro, foi um dos criadores e primeiro diretor da Escola de Cinema e Vídeo de San Antonio de los Baños, perto de Havana. Estive com ele várias vezes. Acho que podemos dizer que somos amigos à distância. Mora na Itália e fez esse filme em homenagem à família de origem no Friuli. Vamos ver o que pode ser.

Estou também curioso para ver o primeiro longa-metragem de Reinaldo Pinheiro. Não sei nada a respeito dele. Curiosamente, sem saber, viajei ao lado de uma das atrizes do filmes, Maria Manoela. Depois, no aeroporto, encontrei Reinaldo e sua mulher, a psicanalista e cineasta Miriam Chneiderman, minha ex-colega de profissão. Batemos um papinho rápido, mas nada falamos sobre o filme. Melhor assim, vê-lo na tela sem qualquer preparo.

Imagino, mas pode ser fantasia minha, que possa ter algo a ver com um curta muito bom de Reinaldo, chamado BMW Vermelho, com Otávio Augusto no papel principal. É a história de uma pobretão que ganha um automóvel caro, o tal BMW, mas fica proibido de vendê-lo. E, ao mesmo tempo, não consegue sustentar o carrão. O que fazer? Ao lado da diversão, aparece uma sutil crítica social. Será que o Opala anda na mesma mão de direção da BMW? Daqui a pouco vamos saber.

Leia abaixo a matéria que fiz hoje para o Caderno 2 sobre o 18º Cine Ceará:

Pelo terceiro ano em formato ibero-americano, o Cine Ceará, em sua 18ª edição, começa hoje à noite com o símbolo perfeito dessa união transcontinental. Fernando Birri, argentino e patrono do festival, vem a Fortaleza para apresentar seu filme mais recente, Elegia Friulana, realizado na região italiana do Friuli, terra dos seus avós. Birri é criador da mitológica escola documental de Santa Fé e autor de uma das obras mais importantes do cinema latino-americano, o documentário Tiré-Die, que influenciou gerações de cineastas. Mora na Itália e comparece a Fortaleza para acompanhar a estréia do filme e também para lançar seu livro O Alquimista Democrático, que sai agora em tradução brasileira.

De europeu, na mostra, além de Elegia Friulana, só há um espanhol, Vete de Mi, que entra na competição em companhia de brasileiros, venezuelanos, chilenos, argentinos e mexicanos. São dez os participantes na seção principal, a de longas-metragens, e o Brasil traz o maior número de competidores, quatro, sendo dois de São Paulo (Nossa Vida não Cabe num Opala e Falsa Loura), um cearense (O Grão) e um carioca (Os Desafinados). Completam a mostra um longa do Peru (Tambogrande), um da Venezuela (Postales de Leningrado), um do Chile (Specials Circunstances), um argentino (Las Vidas Posibles) e um mexicano (Luz Silenciosa).

Da outra mostra competitiva de Fortaleza – a de curtas-metragens – participam apenas brasileiros, com 18 filmes de vários Estados da Federação. Nesse segmento, como no de longas-metragens, o Cine Ceará optou pela convivência de suportes. Há desde a tradicional película em 35 milímetros até os formatos digital e Beta. Solução democrática e simpática aos realizadores, mas com a qual a qualidade visual e sonora às vezes sofre, embora não seja politicamente correto dizer isso. Contra a corrente, há festivais que ainda resistem à tecnologia digital. Brasília, por exemplo, só aceita competidores em película de 35 milímetros. Essa convivência, seus prós e contras, é um vasto tema para discussões acaloradas entre realizadores e diretores de festival, uma espécie de Fla-Flu do meio cinematográfico. Podemos deixá-lo aos diretamente interessados.

Como acontece com outros festivais importante, também o Cine Ceará promove uma série de eventos paralelos que acompanham sua atividade principal, as mostras competitivas. Neste ano, em Fortaleza, teremos dois seminários durante o evento. O primeiro Nordeste, Cangaço e Cinema, tem como tema central Cangaço – a Parte Mal-Dita, sob a coordenação do professor e filósofo Daniel Lins. Compõe-se de 14 conferências, que esmiúçam desde a representação do cangaço no cinema até o delicado relacionamento político entre Padre Cícero e Lampião. Cabe lembrar que existe uma vasta filmografia brasileira tendo por tema o cangaço, ‘gênero’ que foi apelidado pelo crítico Salvyano Cavalcanti de Paiva de ‘nordestern’ – o western nordestino.

O segundo seminário a ser acompanhado em Fortaleza discute tema polêmico atual – a TV pública. Para debatê-lo, estarão na cidade Orlando Senna (cineasta e diretor-geral da TV Brasil) e Leopoldo Nunes (diretor de conteúdo da TV Brasil), além de Paulo Rufino, presidente do Congresso Brasileiro de Cinema.

Além dessas atividades, o Cine Ceará homenageia algumas personalidades. As principais delas, pela importância para o mundo do cinema, são os atores José Dumont e Jorge Perugorría. Dumont é um dos atores brasileiros mais completos. Quem não se lembra dele em Gaijin, Lúcio Flávio e, mais recentemente, em Narradores de Javé? Já Perugorría é o ator cubano com maior trânsito internacional. Ficou famoso mundo afora depois de fazer o homossexual de Morango e Chocolate. No Brasil, filmou Navalha na Carne com Neville d’Almeida.

O festival se encerra dia 17 com um verdadeiro doce-de-coco para o cinéfilo – a exibição da cópia restaurada de O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, um dos filmes de Glauber Rocha mais conhecidos no exterior e que valeu ao cineasta o prêmio de melhor direção em Cannes em 1969.

Competição

NOSSA VIDA NÃO CABE NUM OPALA, de Reinaldo Pinheiro (Brasil)

SPECIALS CIRCUNSTANCES, de Mariane Teleki e Hector Salgado (Chile/EUA)

VETE DE MI, de Victor García Leon (Espanha)

POSTALES DE LENINGRADO, de Marian Rondon (Venezuela)

FALSA LOURA, de Carlos Reichenbach (Brasil)

O GRÃO, de Petrus Cariry (Brasil)

TAMBOGRANDE, de Ernesto Cabellos (Peru)

LUZ SILENCIOSA, de Carlos Reygadas (México/França/Holanda)

OS DESAFINADOS, de Walter Lima Jr. (Brasil)

LAS VIDAS POSSIBLES, de Sandra Gugliotta (Argentina)

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