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De mortuis nil nisi bonum

Luiz Zanin Oricchio

04 de fevereiro de 2009 | 16h40

“Dos mortos só se diz o bem”. É como pode ser traduzida a frase latina do título. Verdade, mas na vida cultural nem sempre é assim que se deve fazer. A frase vem sendo aplicada com rigor no caso da recente morte do crítico Antonio Moniz Vianna, com louvores que têm extrapolado os limites da gratidão e da admiração até se transformarem em hagiografia.

Não sou da época de Vianna e nem nasci ou vivi no Rio, onde ele exerceu seu métier – foi crítico durante muitos anos no Correio da Manhã, onde mantinha sua coluna diária sobre cinema. Mas li, com muito proveito, a coletânea organizada por Ruy Castro faz alguns anos, chamada justamente de Um Filme Por Dia (Cia das Letras). São 91 textos críticos, selecionados, segundo o organizador, de mais de 3 mil artigos disponíveis. E, de fato, o nível desses textos é muito alto, aliando a cultura à legilidade, esta última uma exigência de quem escreve em jornal e se dirige, em tese, a um público amplo e não especializado.

No entanto, acho que Moniz Vianna errou feio ao não reconhecer a importância do Cinema Novo – que estava, justamente, nascendo sob seus olhos, enquanto ele exercia o seu ofício. Bem, avaliações e apreciações estéticas são sempre, e em boa medida, subjetivas. Gostar ou não de um filme: quer coisa mais pessoal? Acontece que, com o recuo histórico, o Cinema Novo recebeu um reconhecimento crítico praticamente unânime. Basta viajar para o exterior e conversar com os melhores críticos de países como França, Itália, Inglaterra e Estados Unidos para constatar que, em boa parte, cinema brasileiro é ainda sinônimo de Cinema Novo. Em matéria de cinema, o nome de Glauber é ainda o que mais provoca admiração entre os entendidos.

Já Moniz Viana, que havia reconhecido no Glauber de Deus e o Diabo na Terra do Sol um cineasta promissor, via em Terra em Transe uma grave regressão. Ele abre assim seu artigo: “Terra em Transe é a obra-prima da indisciplina narrativa, o clímax da antitécnica – é o caos, ou só um disparate”. Gosto é gosto, e tenho a impressão de que muita gente concordaria com as palavras de Moniz Viana ainda hoje. E, de fato, o filme de Glauber é de molde a causar perplexidade, ainda mais em quem tem a narrativa clássica do cinema norte-americano como referência mais forte.

Talvez seja interessante lembrar que, na ocasião da estréia de Terra em Transe, outro espectador ilustre, Nelson Rodrigues, se sentiu tão estupefato quanto o crítico do Correio da Manhã. Mas, depois de considerar o filme “mais complicado que um ideograma chinês virado de cabeça para baixo”, reconheceu a sua importância, seu tom de “jorro”, ou vômito, dessa realidade às vezes absurda chamada Brasil.

Enfim, acho que Moniz Vianna foi mesmo um dos críticos importantes do País. No entanto, não ter reconhecido a importância do Cinema Novo, em estado nascente, foi um grave erro crítico. Equivalente ao de alguém que tenha considerado o cubismo um absurdo e Les Demoiselles d’Avignon uma impostura. Em tempo: não faltaram críticos de arte para dizer isso mesmo de Picasso e de sua obra-prima. O grande crítico, o crítico de choque, é aquele que consegue reconher o novo, que aparece à sua frente e muitas vezes não pode ser comparado com parâmetros já conhecidos. É a chamada intuição crítica. A de Moniz Vianna falhou neste caso.

Por isso tudo acho que está faltando um livro na estante brasileira – uma história, para valer, rigorosa e ampla, da crítica cinematográfica no País. Esta obra exigiria alguém com tempo, isenção, preparo e alma de pesquisador. Ele teria, acima de tudo, de reconhecer o quanto a crítica cinematográfica pode ser dependente do tempo e circunstâncias em que é exercida. Teria portanto de relativizá-la, em suas conclusões e “verdades”. Segundo, seria obrigado a desprovincianizar o debate, fazê-lo suprarregional. Moniz Vianna e grandes críticos cariocas como Sérgio Augusto, Ely Azeredo, Ruy Castro e outros teriam de dividir espaço com críticos de latitudes e longitudes diferentes. Porque achar que o Brasil, mesmo o Brasil dos anos 50 e 60, se resume à Zona Sul do Rio de Janeiro é o cúmulo do narcisismo, uma posição próxima do autismo.

Escrevia-se sobre cinema em outros lugares do País e uma história da crítica não poderia ignorar por exemplo o trabalho de Walter da Silveira na Bahia, os de PF Gastal e Enéas de Souza no Rio Grande do Sul e os de Rubem Biáfora e Francisco Luiz de Almeida Salles em São Paulo. E nem poderia confinar Paulo Emilio Salles Gomes à condição, no caso marginal, de ensaísta acadêmico. Para quem não sabe, Paulo Emilio não permaneceu no gueto universitário. Foi crítico de jornal durante muitos anos. Escreveu com regularidade no Suplemento Literário do Estado de S. Paulo e teve curta passagem pelo Jornal da Tarde. Seu trabalho está reunido nos dois volumes de Paulo Emilio – Crítica de Cinema no Suplemento Literário e no livro Um Intelectual na Linha de Frente.

Contra hagiografias só existe um antídoto: contextualização e senso da História. O que vem a dar no mesmo.

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