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Maria Antonieta: de inimiga do povo a adolescente sapeca

Luiz Zanin Oricchio

15 Março 2007 | 22h22

Na premiação do Oscar, Maria Antonieta ficou apenas com o troféu de figurino. Como se lê esse tipo de premiação? Da seguinte forma: para um filme de época, as roupas estão bonitas e bem escolhidas. Quanto ao resto, melhor não pensar.

É tão ruim assim? Nem tanto. O problema dele, ou melhor, problemas, são de outra ordem. Para começar: sabe aquele tipo de filme de visual deslumbrante, rico e exuberante, mas que, no fundo, parece não ter grande coisa a dizer? É o caso. Mesmo assim, talvez por suas omissões, a versão de Sofia Coppola para a existência da austríaca tornada rainha de França e decapitada no fragor da Revolução Francesa, acaba dizendo muita coisa. Em especial, sobre as idéias da diretora sobre a realeza.

O filme é baseado no livro da inglesa Antonia Fraser, que alimenta a ambição de reabilitar a rainha. Isso explica a direção tomada por Sofia Coppola e a maneira como leu o livro.

A idéia básica, parece, é que Maria Antonieta (interpretada pela linda Kirsten Dunst), não passava de uma adolescente confusa e mimada, sem qualquer consistência política. No fundo, essa interpretação, acertada ou não, isenta Antonieta de qualquer culpa, inclusive da frase infeliz, atribuída a ela pela História. Segundo a lenda, quando alguém lhe diz que o povo francês passa fome e não tem pão, ela responde: “Não tem pão? Que coma brioches.” O filme desmente a lenda e atribui a boutade infeliz a outras pessoas.

Mas é mesmo em outros aspectos do filme que se pode compreender a idéia de Sofia sobre o ancien régime francês. A concepção “adolescente” é reforçada pela trilha sonora composta de rock e música moderna. Há uma cena interessante, quando a vaidosa Antonieta exibe sua vasta coleção de sapatos e, entre eles, aparece um par de tênis contemporâneo. A “mensagem”, clara como água: Maria Antonieta poderia ser uma adolescente como qualquer uma que conhecemos. Só falta o iPod no ouvido.

De resto, há de tudo. Versailles é reduzida a uma festa permanente, cheia de fuxicos entre amiguinhas, intrigas palacianas e um velho rei, Luis XV, se divertindo sexualmente com Madame du Barry (Asia Argento) enquanto espera pela morte. Não há nesse luxo um tanto deslocado aquele sentido da decadência que faz o encanto dos filmes de Luchino Visconti. Mas Visconti era nobre, além de um senhor cineasta. Sabia filmar e, acima de tudo, compreendia muito bem aquilo de que estava falando. Com Sofia se tem sempre uma sensação de inadequação entre o projeto e a pessoa que o realiza.

Daí dizer que seu trabalho tem um tom fake talvez fosse a conclusão mais lógica. Não se trata tanto disso. Maria Antonieta é bem-feito, apresenta um corpo vistoso mas não consegue revelar uma alma. Além dessa tentativa de caracterizar a rainha como um garota estouvada, avança pouco no sentido do desvendamento da figura de Maria Antonieta.

No entanto, é bom que se reconheça a dificuldade para tratar de figuras demonizadas pela História como Maria Antonieta e seu esposo, o rei Luís XVI. Basta ler o verbete sobre a rainha no Larousse Illustré: “Imprudente, pródiga a ponto de lhe serem imputados todos os escândalos, inimiga das reformas, ela se torna impopular. Induz o rei a resistir à Revolução.” Secamente, o texto informa que Maria Antonieta foi presa em agosto de 1792, transferida para a Conciergerie depois da execução do marido, e guilhotinada em 16 de outubro de 1792. Nada mais.