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De Gravata e Unha Vermelha

Luiz Zanin Oricchio

14 de maio de 2015 | 14h38

Há questões que se impõem na vida contemporânea, enquanto outras saem da pauta. Uma das que se destacam, mesmo neste Brasil assolado por um neoconservadorismo extemporâneo, é a pauta da diversidade sexual. A maneira plástica como a sexualidade humana se estrutura implode a classificação fácil ou “natural” de categorias como macho, fêmea e “desviantes”. Isso se sabe desde a Antiguidade, embora ainda choque nobres parlamentares. Só recentemente passou a ser assumida de pleno direito, embora ainda seja de difícil assimilação social para a moral média nacional. Em De Gravata e Unha Vermelha, a cineasta e psicanalista Miriam Chnaiderman lança um olhar delicado sobre esse leque aberto pela sexualidade humana, buscando retratar mais as pessoas do que enquadrá-las em classificações fáceis em gêneros.

O documentário ouve uma gama variada de depoentes, que abarca de celebridades como Ney Matogrosso, Laerte e Rogéria até anônimos. Muitos destes enfrentam preconceitos em regiões do país fora dos núcleos metropolitanos que, de modo geral, absorvem melhor as diferenças – qualidade que é a contrapartida da fria impessoalidade urbana.

De qualquer forma, De Gravata e Unha Vermelha traça um painel do, digamos assim, estado das coisas da questão da diversidade sexual no Brasil. Parece adequado mesclar os casos de pessoas famosas e anônimas. O mundo não trata as duas esferas da mesma maneira. Celebridades gozam de uma espécie de alvará para ser diferente da média, coisa que não acontece com gente comum. Mesmo assim, são muito interessantes o que pessoas de destaque têm a dizer sobre sua formação e exercício das suas sexualidades. Ney e Rogéria assumiram a diferença quando essa postura era um grande tabu. Laerte, com seu crossdressing, causa ainda desconforto em certa faixa da população.

A opção pelo grande número de entrevistados cobra seu preço. Às vezes, procurando ser abrangente, o documentário torna-se um tanto dispersivo. Talvez se concentrando num universo mais reduzido, pudesse aprofundar os retratos. De qualquer forma, mesmo sem buscar a perfeição, Gravata e Unha Vermelha expressa sem dúvida uma perspectiva progressista de sua autora, que faz cinema, mas tem como origem profissional a prática da psicanálise. Myriam, até mesmo pela experiência clínica, encontra-se particularmente bem posicionada para acolher o tema da diversidade sexual. E também sabe muito bem a gama de sofrimento adicional que o preconceito pode impor a determinados indivíduos. Nesse sentido, o filme cumpre uma tarefa civilizatória, de que andamos muito precisados, sem dúvida.

 

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