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De cigarro em cigarro

Luiz Zanin Oricchio

04 de dezembro de 2009 | 17h43

O vencedor do Festival de Brasília, É Proibido Fumar, é irônico até no título. Na nossa época neo-puritana até mesmo o ato prosaico de acender um cigarro passou a ser visto como uma transgressão. Pois bem, neste que é o seu segundo longa-metragem (o primeiro é o também muito bom Durval Discos), Anna Muylaert fala justamente de pequenas e de grandes transgressões. E, para provável pasmo de parte da plateia, relativiza as noções de culpa e arrependimento em nome de um valor mais alto – a cumplicidade amorosa. Se na avalanche de compromissos de fim de ano e estresse natalino tivermos algum tempo disponível, seria o caso de empregá-lo na discussão deste filme, um daqueles que, como se diz, “dão o que falar”.

Em mais de um sentido, pois se a história começa no molde de uma comédia rasgada, logo se torna tensa em sua segunda parte e o suspense se resolve de maneira pouco habitual no desfecho. Gloria Pires, em sua melhor atuação no cinema, é Baby, que vive no apartamento herdado da mãe e dá umas aulinhas de violão. Entusiasma-se pelo novo vizinho, Max (Paulo Miklos) e iniciam um caso. Ela é fumante inveterada. Ele não fuma e faz campanha para que ela deixe o hábito. Banal? Sim e não. A história é construída a partir dessa e de outras trivialidades, e tenta mostrar que qualquer vida, qualquer relacionamento, quando vistos de perto são ricos, contraditórios, cheios de subentendidos e níveis de compreensão.

O próprio filme é construído dessa maneira. Em camadas. Por isso seria grave miopia vê-lo apenas como comédia, suspense ou discussão moral. Ele é tudo isso ao mesmo tempo. Sem fazer qualquer tipo de comparação, É Proibido Fumar funciona como alguns filmes clássicos de Dino Risi ou Mario Monicelli. Pensa e critica através do riso, mas também do suspense e da emoção. É um trabalho inteligente de som e imagens, bem construído e que pode dialogar com um público mais amplo – justamente o que anda faltando ao cinema brasileiro de qualidade.

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