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Dawson Ilha 10

Luiz Zanin Oricchio

25 de novembro de 2011 | 19h00

Logo depois do golpe militar de 11 de setembro de 1973, o regime de Pinochet deportou para uma ilha remota alguns dos mais próximos colaboradores do presidente deposto Salvador Allende. Essa história é contada no filme Dawson, Ilha 10 – a Verdade sobre a Ilha de Pinochet, do diretor chileno Miguel Littin.
O filme é baseado no livro de um desses prisioneiros, Sergio Bitar, que, em sua chegada a Dawson, foi “rebatizado” como Ilha 10. Ele e todos os outros, ao chegar, perdiam o nome próprio e ganhavam a nova designação: Ilha 1, Ilha 2, e assim por diante. Ilha 13 era pulado, “para não trazer má sorte”, segundo um dos oficiais que comandavam o campo de concentração.

A extinção do nome próprio faz parte do protocolo dos campos de concentração de todos os tempos e geografias: provocar a despersonalização do prisioneiro.
Cortar laços com seu passado e sua história. Dobrá-lo à vontade dos novos senhores, “reeducá-los”, em suma, a partir de sua anulação como pessoas. Isso, ao lado do frio permanente, dos maus tratos, da má alimentação, do trabalho forçado, compõe a estratégia do poder para extinguir a vontade dos oponentes. Quer dizer, matá-los em vida.

Por paradoxo, Ilha 10 torna-se o relato da resistência e da preservação do amor-próprio em condições árduas. Nem todos sobreviveram à experiência em Dawson. Mas muitos ficaram para contar a história. Entre eles, o narrador. O filme adota o ponto de vista desse testemunho em primeira pessoa, que, muitas vezes, fala em off sobre o que está acontecendo e sentindo. Esse ponto de vista é alternado para a narrativa mais impessoal, objetiva, o ponto de vista da câmera, em “terceira pessoa”.

Littín também adota a estrutura em círculo, começando a história por onde ela terminará – a visita de uma delegação das Cruz Vermelha e de jornalistas internacionais, que viajam à ilha para averiguar as condições de tratamento dos prisioneiros. O que se tem durante o filme, então, é o relato, em flash back, da chegada do grupo à ilha, do tempo que ali passaram e o que lá aconteceu, até a visita da Cruz Vermelha.

Não que a ditadura Pinochet fosse dada a essas delicadezas de espírito, mas, afinal, via-se obrigada a dar alguma satisfação à comunidade internacional para não ficar isolada. E também havia o fato de que os prisioneiros de Dawson não eram gente comum. Eram ex-ministros, diplomatas, dignatários e intelectuais do governo deposto, e sua prisão no campo de concentração provocava protestos mundo afora. Entre eles, por exemplo, estava Orlando Letelier, político e diplomata de Allende, posteriormente assassinado num atentado em Washington em 1976.

Com Ilha 10, Miguel Littín, importante diretor de uma obra-prima do cinema latino-americano como O Chacal de Nahueltoro, reencontra seus melhores momentos como cineasta. Rigoroso, terno e profundo, Littín faz de Ilha 10 uma contundente homenagem à memória como arma de resistência histórica.

(Caderno 2)

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