David Perlov: epifanias do cotidiano
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David Perlov: epifanias do cotidiano

Luiz Zanin Oricchio

23 de março de 2011 | 09h24

Em certo sentido, David Perlov realiza a utopia da “câmera-caneta” elaborada por Alexandre Astruc nos anos 1950 num artigo inspirador para os cineastas da nouvelle vague. Perlov usa sua câmera 16 mm como um instrumento de escrita do seu diário pessoal. Registra sua vida, a partir da janela do seu apartamento em Tel Aviv. Filma sua mulher, suas duas filhas. Ao longo da série, vê-se envelhecer. E observa as meninas crescerem e se transformarem em belas mulheres, que lhe darão netos. Capta o fio da vida – e este abarca também o mundo, que tem o cineasta como seu personagem atuante, ano após ano, a partir de 1973. Os Diários são sua obra mais conhecida, em seis capítulos que o Instituto Moreira Salles, no Rio, e a Cinemateca Brasileira, em São Paulo, estão exibindo, ao lado de outros títulos do autor, até dia 30 (veja a programação no site da Cinemateca.

A mostra, com curadoria da pesquisadora Ilana Feldman, não poderia ter nome mais adequado – Epifanias do Cotidiano. De fato, o que se sente, ao ver esses filmes em sequência, são pequenas iluminações que surgem a partir do registro em aparência mais simples. Registro tanto mais agudo quanto maior é a sensação de estranhamento de Perlov.

Judeu, nascido no Rio de Janeiro e criado em Belo Horizonte e São Paulo, passa longa temporada em Paris e se estabelece em Israel. “A que lugar pertenço?”, pergunta-se. E, pode-se especular, essa câmera viajante faz parte de uma tentativa de resposta a esse desenraizado crônico.

David Perlov nasceu em 1930 no Rio, filho de um mágico itinerante e uma mulher analfabeta. Foi criado em Belo Horizonte e, menino ainda, mudou-se para São Paulo. Em 1952 emigra para a França, onde trabalha com Henri Langlois e Joris Ivens. Em seguida, mudou-se para Israel, onde passa a viver. Seu filme Em Jerusalém foi premiado no Festival de Veneza de 1963. A partir dessa repercussão internacional, Pelov passou a ser conhecido como “pai do cinema israelense”. Curiosamente, teve dificuldades para realizar seus projetos, até se decidir a abandonar o cinema comercial e filmar por conta própria. Dessa decisão, e da compra de uma câmera 16 mm, nascem os Diários – sua obra mais festejada e conhecida internacionalmente. Perlov morreu em 2003.

O Brasil está muito presente sua na filmografia – e nem poderia ser diferente, uma vez que se deu aqui seu processo de formação. Sente-se o Brasil não apenas pelas visitas de amigos brasileiros que recebe em Israel, como por suas viagens ao País. A parte 6 dos Diários é filmada no Brasil, terno reencontro com o Rio, Belo Horizonte e a São Paulo da sua infância, cidades já tão mudadas. O Brasil aparece também nas evocações verbais de Perlov através da figura de Dona Guiomar, uma espécie de mãe de criação. Protestante, filha de escravos, continua presente no imaginário de Perlov que a relembra, ao mesmo tempo em que procura exorcizar medos e preconceitos.

A câmera é, também, terapêutica, além de despertar o sublime que dorme oculto no aparentemente banal.

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