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Daniel Piza (1970-2011)

Luiz Zanin Oricchio

01 de janeiro de 2012 | 13h05

Começamos praticamente juntos no Caderno 2 do início dos anos 1990, ambos sob a batuta do grande editor José Onofre. Piza chegou ao caderno recomendado por pesos-pesados da profissão como Paulo Francis e Ruy Castro. Dele, Ruy um dia me falou “Um rapaz de 20 anos que lê Mencken é algo muito raro hoje em dia”. Era isso que chamava a atenção em Daniel: a quantidade de informações eruditas que armazenara em tão pouco tempo de vida.

Com sua cultura letrada precoce, Piza estreou no Caderno 2 escrevendo sobre assuntos em geral reservados aos mais experientes. Lembro que um dos seus primeiros textos no Estado foi uma resenha da coletânea 11 Ensaios, de Edmund Wilson, tarefa complicada da qual se saiu muito bem. Dessa e de outras. No período de sua primeira passagem pelo Estado, Daniel escrevia, e bem, sobre vários assuntos. Embora um tanto concentrado em literatura e artes plásticas, exercia já o ecletismo que deu o tom em toda a sua carreira.

Saindo do Estado, foi para a Folha e, de lá, transferiu-se para a Gazeta Mercantil, onde teve sua mais fértil experiência como editor. Durante alguns anos, o Caderno de Fim de Semana, por ele dirigido, tornou-se referência no meio do jornalismo cultural. Um relato desse período está em seu livro Jornalismo Cultural. Abrangente, bem escrito, leve sem deixar de ser profundo, o Fim de Semana tornou-se o mais popular caderno do velho jornal econômico. Nele, Piza iniciou a coluna Sinopse, que escreveu até o fim da vida.

Trouxe a coluna para o Estadão, em 2000, quando retornou, já na condição de editor-executivo. Pensada, de início, como lugar de decantação do vasto consumo cultural do seu titular, a coluna reservava espaço também para o futebol, cinema, análise política, econômica ou comportamental. Na Sinopse cabia de tudo, pois, se havia uma convicção de seu autor era de que tudo se comunicava com tudo e que uma disciplina ilumina a outra, como não percebem os que têm apego à especialização.

Quem lia sua coluna cultural, repleta de referências eruditas, alfinetadas políticas, ironias e potenciais polêmicas, não poderia adivinhar o papo ameno que mantinha no contato pessoal. Era informal, gozador e ouvia o que o outro tinha a dizer. Também foi ameno em suas relações de chefia. Outro dia, por acaso, falava com o jornalista Orlando Margarido quando o nome de Daniel Piza entrou na conversa. Em situações e épocas diferentes, havíamos tido Piza como superior hierárquico nas redações. Ele, como repórter do Caderno de Fim de Semana da Gazeta Mercantil, entre 1998 e 2000. Eu, quando era editor do Caderno Cultura do Estadão tendo Daniel como coordenador da área. Lembramos que, no trato profissional, o polemista tão assertivo, que surgia na coluna, desaparecia para dar lugar ao chefe compreensivo e respeitoso pela autonomia de quem com ele trabalhava. Se, caso raro, Daniel discordava de um artigo ou de uma abordagem, discutia e trocava ideias com seu autor ou com o editor. Não impunha e nem vetava. Debatia. Esta é a marca, aliás, das pessoas intelectualmente seguras de si.

Escrevo isso tudo tentando evitar o tom piegas dos obituários, que o próprio Daniel abominava. Como todos nós, tinha seus defeitos e também inúmeras qualidades. Entre elas, para mim, as maiores que um jornalista pode ter: por um lado, a prosa límpida que expressava sua cultura de base e a diversidade sempre renovada dos seus interesses, texto esculpido na leitura do seu autor predileto, Machado de Assis; por outro, o respeito ao interlocutor, em especial se dele divergia por completo.

Mesmo quem discordava das ideias de Daniel Piza há de sentir sua falta neste já tão árido panorama cultural brasileiro.

 

(Este é o texto na íntegra. Na versão impressa saiu apenas uma parte).

 

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