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Dança dos sentidos nessa valsa gaúcha

Luiz Zanin Oricchio

16 de junho de 2008 | 14h11

Nas primeiras cenas – muito belas – vêem-se, desfocadas, mãos que torneiam o barro e tentam lhe dar forma de estátua. São mãos do personagem-título, Bruno Stein, interpretado com a classe de sempre por Walmor Chagas. Ele é um alemão que chegou criança ao Brasil fugido da guerra. Proprietário de pequena olaria, vive na bela casa isolada, com a mulher, Olga (Araci Esteves), a nora (Ingra Liberato) e a neta (Fernanda Moro).

O filme, dirigido por Paulo Nascimento, busca sua força na criação de climas. Ambientado na região de Caçapava do Sul (RS), utiliza bem uma paisagem que é tanto linda como árida. Ela faz parte dos tormentosos sentimentos dos personagens. De Bruno, que sente se encaminhar para o fim da vida e mesmo assim experimenta a pulsação da sexualidade. Sentimento ainda mais presente na insatisfeita Valéria (Ingra Liberato), casada com o filho de Bruno, caminhoneiro que vive na estrada, como é próprio do métier. Dessa conjunção de desejos e emoções cruzados se alimenta a história. De certa forma, eles se intensificam pela chegada de um novo empregado da olaria, o jovem Gabriel (Marcos Verza).

Gabriel, parece, deveria funcionar como uma espécie de catalisador, aquele agente que explicita e põe às claras o que estaria apenas latente ou encoberto. Função representada, por exemplo, pelo ‘anjo’ de Terence Stamp no clássico Teorema de Pier Paolo Pasolini.

Acontece que em Valsa para Bruno Stein, essa função de catálise não se justifica plenamente, o que deixa um tanto solto o personagem de Verza. E ele também não é a única ponta solta dessa história que, para funcionar naquilo que se propõe, deveria ter seus laços mais apertados. Não se trataria, talvez, de concentrar apenas o foco sobre os verdadeiros protagonistas da história – mesmo porque eles adquirem sentido também pelas relações que mantêm com os outros.

Acontece que o que deveria ganhar força pela sugestão e pela elipse, acaba se diluindo em diálogos muito óbvios, ou simplesmente profusos. Como boa parte do cinema brasileiro contemporâneo, este também fala demais – e não acredita na força dos espaços vazios e das lacunas.

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