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Dálmatas ou vira-latas?

Luiz Zanin Oricchio

17 de janeiro de 2012 | 14h25

Afinal, somos dálmatas ou vira-latas? Pergunto assim, de supetão, mal refeito daquele jogo entre Santos e Barcelona. Nesse período de entressafra do futebol esperava ver discussão mais produtiva sobre esse jogo altamente simbólico. Verdade que num primeiro momento todos os comentaristas falaram sobre o assunto. Dos derrotistas de véspera aos triunfalistas pró-Barcelona, a turma do “Eu não disse?”.

Analistas de outras áreas se aventuraram no tema, tão grande pareciam as consequências da surra aplicada pelo Barça. Francisco Bosco, de O Globo, chamou de Complexo de Dálmata a afirmação (a frase é de Guardiola) de que o Barcelona se limitara a atuar da mesma forma que os brasileiros faziam no passado. A nomeação da nova síndrome psíquica brazuca – que dá título à coluna de Bosco – seria glosa e inversão do famoso “complexo de vira-latas”, expressão de Nelson Rodrigues para definir o ancestral sentimento de inferioridade nacional em relação a estrangeiros.

Assim, ao contrário da inferioridade atávica, a nossa soberba futebolística seria tamanha que, mesmo ao levar uma surra, dizemos que o adversário nada mais fez que aplicar a nós mesmos o remédio que nos era próprio, ainda que no passado. O objetivo da coluna seria mostrar como é pífia essa ilusão de precedência, para então defender a absoluta originalidade do Barcelona.

A coluna de Bosco mereceu comentário de José Miguel Wisnik, no mesmo diário. Torcedor do Santos, Wisnik é um dos mais sofisticados intelectuais brasileiros, sendo autor de uma obra referencial sobre futebol chamada Veneno Remédio. Na coluna, Wisnik fala de um jogo assustador, inventado pelo Barcelona, uma monstruosidade tática capaz de atacar o tempo todo sem jamais se expor ao adversário. Virtualmente imbatível, o Barcelona seria o atual paradigma do futebol.

O Barça faria a síntese entre o futebol de prosa europeu e o futebol de poesia sul-americano, negando, na prática, a famosa dicotomia de Pier Paolo Pasolini, feita sob inspiração do escrete brasileiro de 1970. A seleção causou ao cineasta, poeta e ensaísta Pasolini impressão semelhante à provocada pelo Barcelona hoje em dia em todos nós. Aquela seleção era inimitável (como reunir em outro time Tostão, Pelé, Gérson, Rivellino, etc?), assim como o Barcelona é inigualável (como encontrar outros como Messi, Xavi e Iniesta?).

Mas a seleção de 1970, tida como imbatível e moderna, pode ter produzido, por reação, a revolução tática de Rinus Michels, criador da Laranja Mecânica. Sim, a temível Holanda de 1974, que colocou o Brasil na roda, encantou o mundo e perdeu a final para a Alemanha. Michels encontrou a fórmula de bater o Brasil, sem retranca ou pontapés. Só na bola. Ora, a Laranja Mecânica, todos sabemos, é mãe do atual Barcelona. O futebol total é invenção da Holanda de Michels, que depositou seu DNA na Catalunha através de Johan Cruyjff, em especial. O resto é história, da qual fazemos parte.

Daí que, a meu ver, não somos dálmatas ou vira-latas. Somos apenas uma potência futebolística em momento de baixa imaginação tática e entressafra de talentos.

(Boleiros, Caderno de Esportes, 17/1/2012)

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