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Dá para ver Cidadão Kane na telinha de um iPod?

Luiz Zanin Oricchio

14 Janeiro 2007 | 11h45

Materinha que escrevi no Cultura de 14/01/07:

A pergunta do título é feita pelo crítico da New Yorker, David Denby, no belo artigo Big Pictures (Hollywood Looks for a Future. O ensaio reflete sobre as novas tecnologias e a maneira como elas começam a interferir não apenas no processo de produção dos filmes mas na maneira como o público os assiste.

Hoje, filmes já podem ser baixados da internet e assistidos até mesmo na minúscula telinha de um iPod. O próprio Denby fez a experiência de assistir num aparelhinho desses a um sucesso – Piratas do Caribe, com Johnny Depp – e ficou impressionado com o que viu. Depp duelando com Orlando Bloom como se fossem dois mosquitos presos dentro de um frasco. Dimensões liliputianas.

Esse fenômeno faz parte de uma lógica de mercado que deverá generalizar-se no futuro próximo. A revolução tecnológica começa a tornar obsoleta (por causa dos custos) a distribuição dos filmes em cópias de celulóides. O peso, a despesa com o transporte e a própria manufatura de cada cópia, que precisa ser distribuída fisicamente a cada sala de exibição, são fatores que tendem a tornar essa prática coisa de museu. Um veterano executivo de um dos sete grandes estúdios confidencia ao crítico, com um suspiro: ‘Temos de embarcar na revolução digital, senão vamos todos virar dinossauros.’

Há outros fatores em jogo. Faz tempo que a venda de ingressos em sala não é a principal fonte de renda de um filme. Denby dá números: 20% do total do rendimento vem das salas de exibição, 50% do aluguel e vendas em DVD e o resto da televisão (aberta, por assinatura e pay-per-view).

De qualquer ângulo que se veja, a revolução digital parece incontornável. Mas ela não se dá sem problemas. Como lembra Denby, o digital abre enormes possibilidades para os cineastas – filmar, hoje, se tornou muito mais barato, se você não faz questão de trabalhar com película de 35 mm. A distribuição também pode ser facilitada, pois é muito mais barato ‘enviar’ uma cópia por satélite que expedi-la de forma física. E os filmes podem ser vistos onde se quiser – na tela grande de um cinema convencional, na TV através do aparelho de DVD, na telinha de um laptop, no iPod, no celular…

Só não se pode esquecer que ‘cada tipo de tela traz consigo sua própria estética, e impõe um tipo de experiência social ao espectador.’ Quer dizer, o movimento de passagem do analógico ao digital, da enorme tela de um cinema daqueles de antigamente à minúscula telinha de um celular, não é um processo que se dê de maneira neutra. Tem suas conseqüências.

Denby cita como exemplo o maior clássico do cinema americano. Ver Cidadão Kane, com suas angulações inusitadas e profundidade de campo, numa TV, é uma experiência pela metade. Assisti-lo depois na tela grande, junto com o público, pode ser uma espécie de revelação. No futuro, podemos pensar em legiões de espectadores que não disporão em seu acervo imaginário desse tipo de experiência coletiva e estética. Nesse momento, conclui o crítico, o cinema, essa refinada forma de arte visual, terá declinado e se transformado em outra coisa.