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Cuba, entre integrados e apocalípticos

Luiz Zanin Oricchio

01 Janeiro 2007 | 12h41

Por conta da longa doença de Fidel Castro, Cuba e sua possível sucessão vem aparecendo com freqüência no noticiário. E causando divisões inconciliáveis entre leitores porque parece que, ainda hoje, em pleno século 21, é impossível manter uma atitude equilibrada em relação à ilha. Uma amiga, Margarita Hernandez, cubana hoje casada com brasileiro e radicada em Fortaleza, escreveu aqui mesmo neste blog algo assim: os brasileiros são muito passionais em relação a Cuba. Ou amam e não toleram a menor crítica ao país ou o odeiam sem qualquer nuance. Cuba seria o paraíso ou o inferno, sem estágios intermediários.

Pois bem, para contrabalançar esse Fla-Flu herdado da guerra fria, e que teima em continuar vivo entre nós, sugiro dois antídotos em nome da inteligência humana: primeiro, assistir à excelente cópia em DVD de Memórias do Subdesenvolvimento, de Tomás Gutiérrez Alea, lançada pela Videofilmes; segundo, ler o livro Cuba – Uma Nova História, do britânico Richard Gott, edição recente da Jorge Zahar.

Memórias do Subdesenvolvimento foi lançado inicialmente em 1968. Quer dizer, foi rodado na primeira fase da revolução, antes que se completasse o alinhamento completo do regime com o stalinismo soviético. É tido como um clássico do cinema latino-americano por sua força de experimentação, pela leveza e profundidade como mostra os dilemas existenciais e políticos de Sergio (Sergio Corrieri), um burguês que decide não abandonar a ilha com sua esposa e pais ricos, mas que também não consegue se identificar com a revolução em curso em seu país. As relações de Sergio com seu povo são um pouco como as reações de parte do mundo em relação a Cuba: um misto de fascínio e desprezo, sentimentos intrincados que impedem justamente que a ilha seja vista com um mínimo de isenção. Veja o filme e entenda o porquê dessa ambivalência de sentimentos.

Cuba – uma Nova História é o melhor livro que li até agora sobre o país. Tão distante das histórias oficiais escritas pelos cubanos quanto da engajada visão liberal sobre o país. É livro para quem deseja compreender a história e não para quem quer confirmação para preconceitos, de direita ou de esquerda. Gott retraça a história cubana desde a colonização espanhola, passando pela luta de libertação, que teve participação direta dos Estados Unidos e, durante quatro anos dominou a ilha, deixando-a apenas com a salvaguarda de uma legislação, a Emenda Platt, que autorizava os EUA a intervir sempre que lhe conviesse.

Esse histórico do interesse permanente dos Estados Unidos por Cuba explica muita coisa, tanto do relacionamento com Fulgêncio Batista e Fidel, como das emendas de embargo posteriores, as leis Toricelli e Helms-Burton. Gott faz uma revisão vívida da revolução, contemplando tanto seu caráter experimentalista e original (em sua primeira fase) como das violações dos direitos humanos e execuções em massa. Revive e interpreta episódios capitais, com a tentativa de invasão dos exilados em Miami apoiados pela CIA pela Praia Girón, como a crise dos mísseis, que quase levou o mundo ao beleléu em 1962. Discute as conseqüências do alinhamento com a União Soviética e o destino de Cuba depois que se viu praticamente sozinha com a dissolução do campo socialista. Analisa a posição de Raúl Castro no regime e das lideranças pós-revolucionárias como Carlos Lage e Ricardo Alarcón. E defende a tese (escrita antes de Fidel cair doente) de que a transição de fato já se realizou.

Enfim, livro e filme, obras de tempos diferentes, são, a meu ver, uma senhora contribuição para que se veja o momento histórico de Cuba em toda a sua complexidade, com suas nuances e sutilezas. São ambos indicados para quem deseja compreender o mundo de maneira rica e não se satisfaz com apologias acríticas ou com xingamentos e preconceitos. Para começar o ano com inteligência.