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Cuba e o Corno da Abundância

Luiz Zanin Oricchio

10 de julho de 2009 | 18h04

Como é muito rara a chegada de filmes cubanos ao Brasil, O Corno da Abundância, de Juan Carlos Tabío, torna-se programa obrigatório para os freqüentadores do Festival de Cinema Latino-americano de São Paulo. Tabío é diretor inventivo, com filmes que mexem muito bem com a metalinguagem, como Plaff, um dos seus títulos mais conhecidos. Quando o maior diretor da ilha, Tomás Gutiérrez Alea, ficou doente, Tabío ajudou-o a dirigir seus últimos filmes, Morango e Chocolate e Guantanamera.

Dessa convivência, pode ter nascido o tom de O Corno da Abundância – mordaz em relação à realidade cubana, porém uma crítica também amorosa. Um certo modo de ser cubano parece tanto encantar quanto irritar o realizador. Desse modo, virtudes públicas como o amor ao país podem se mostrar veículos de vícios privados como a intolerância em relação a quem pensa diferente. Carências materiais são escancaradas e o mito do “homem novo”, aquele que pensa coletivamente, é arquivado em nome da ambição. A problemática relação do cubano com o fora e o dentro da ilha também é explorada de maneira cômica, em especial no que diz respeito à comunidade de Miami. Enfim, encontra-se nessa pequena comédia um vasto elenco de temas a serem discutidos – e questionados através do humor.

A história é a de uma suposta herança. A um vilarejo cubano chega uma bombástica notícia: existe uma grande herança esperando por todos os descendentes da família Castiñeiras. Grande família: ser um Castiñeira, em Cuba, equivale a ser um Silva no Brasil. Acontece que no século 18, três freiras fugiram com uma grande soma de Cuba e, temendo ser atacadas por piratas, colocaram o dinheiro em um banco inglês. Com rendas e dividendos, a soma chegou ao século 21 transformada em fortuna. Tudo à disposição dos Castiñeiras…desde que possam provar a descendência pela árvore genealógica.

Um desses Castiñeiras é o personagem de Jorge Perugorría, astro de Morango e Chocolate, o filme cubano mais conhecido no exterior. Ele, como todo cubano, precisa urgentemente de dinheiro para as coisas mais básicas da vida, como construir um quarto novo em sua casa, que lhe permita certa privacidade com a esposa. As peripécias para levantar a grana são engraçadas e, a cada passo, se defrontam com mazelas da vida real na ilha, como a burocracia, a penúria, o fanatismo extemporâneo (o pai de Perugorría, interpretado pelo grande ator cubano Enrique Molina, é um veterano da Revolução e, solitário, defende seus valores e ideais, diante de uma maioria de descrentes e materialistas).

Tabío filma sua fábula corrosiva com muita graça. Usa a metalinguagem sem exagero, na maneira como alguns atores se dirigem à câmera, em especial Perugorría, que é o narrador. É uma comédia que surpreende, não tem medo do politicamente incorreto e dialoga com a sensualidade caribenha em cenas de sexo que nunca se completam. Pena que a cópia apresentada seja em DVD, o que prejudica demais a fruição visual. Mesmo assim, vale a pena, porque é o tipo do filme que dificilmente chega ao circuito comercial, apesar de sua qualidade.

(Caderno 2, 10/7/09)

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