As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Crônica Familiar

Luiz Zanin Oricchio

25 de abril de 2008 | 17h04

Amanhã (sábado, dia 26), na sessão cinéfila do Espaço Unibanco, será exibida, ao meio-dia, a obra-prima de Valerio Zurlini, Dois Irmãos (Cronaca Familiare). Filme estupendo, sobre o qual falei quando reestreou, com cópia nova, em 2003. Abaixo, a matéria que escrevi naquela ocasião.
—————

Pobre daquele que atravessou a vida sem ter conhecido a renúncia ou a
transgressão. A frase vale por um projeto existencial inteiro e se encontra naquela que é considerada a obra-prima de Valerio Zurlini, Dois Destinos (Cronaca Familiare), que estréia hoje em São Paulo. Sobre os temas da renúncia e da transgressão de fato se constroem os temas dessa crônica familiar, para usamos o título original italiano.

O termo crônica se aplica muito bem a essa historieta: dois irmãos, vividos por Marcello Mastroianni e Jacques Perrin se perdem de vista e depois se reencontram, já adultos. Conversam sobre a mãe, que morreu jovem. Enrico (Mastroianni), o mais velho, a conheceu melhor e fala dela para Lorenzo (Perrin), o mais jovem. Aviva-lhe a memória, ou, talvez fosse melhor dizer, constrói para o jovem a memória de uma mãe que ele na prática não conheceu.

O mais velho, que não deu em nada na vida porque se dedicou a suas idéias
políticas, tenta encaminhar o mais jovem. E depois também deverá ampará-lo quando cai doente de uma misteriosa enfermidade. Passa pelo filme essa ternura antiga, ligada pelos laços familiares, sanguíneos.

Dito dessa forma, tudo parece um pouco etéreo, mesmo porque Zurlini não é
cineasta de fatos e sim de sentimentos. Certo, sua opção narrativa é
escorreita, linear, solta-se sem qualquer oposição à leitura do espectador.

Mas, como a sua atenção está em outra parte, procura sempre reproduzir um
clima, um pathos, uma atmosfera emocional. E esta encontra expressão na
atuação dos intérpretes, claro, mas também na fotografia, na composição dos planos, no uso da música. A conjunção dessas partes num tônus emocional excepcional faz de Dois Destinos nada menos que uma obra-prima. Bem, uma obra-prima camerística, que brilha pela discrição, pela elegância e nem por isso é menos marcante.

Zurlini é um cineasta que ficou menos conhecido do que deveria, talvez por ter sido contemporâneo de figuras exponenciais. Os seus foram os anos 60 e 70, e ele teve de dividi-los com Antonioni, com Fellini, com Visconti, nomes mais vistosos do grande cinema italiano do passado recente. Artistas muito pessoais, donos de estilos inconfundíveis, inovadores cada qual à sua maneira e profundamente influentes. O estilo é o homem, dizia Buffon, e Zurlini seguiu o seu com convicção. Talvez uma imposição de temperamento, ele evoluía mais à sombra, embora fosse reconhecido na Itália. Jurista de formação, homem de esquerda, era, mais ainda do que seus colegas famosos, um humanista.

Dois Destinos talvez seja sua obra realmente mais lograda, embora haja quem prefira Verão Violento, A Moça com a Valise, ou o maravilhoso A Primeira Noite de Tranqüilidade. Zurlini deixou também uma bela adaptação de O Deserto dos Tártaros, obra de Dino Buzatti que trabalha com os temas do absurdo e da alienação.

Dois Destinos é uma adaptação do romance homônimo de Vasco Pratolini, autor também pouco conhecido no Brasil. Um projeto que Zurlini teve de adiar por muitos anos. Leu o romance em 1952 e imediatamente se apaixonou pelo texto.

Procurou por Pratolini e teve a idéia, ousada para a época, de filmar em
cores. Não via outro jeito de fazê-lo, mas então os filmes coloridos ainda eram raros na Europa. Teve de adiar o projeto por dez anos.
Quando conseguiu fazê-lo, decidiu ficar o mais próximo possível do texto.

Despojou seu estilo de qualquer artifício, buscando, como disse em uma
entrevista, um tom literário, quase estático. O drama entre os dois irmãos se exprime nesses diálogos às vezes muito alusivos, com um pano de fundo também pouco marcado, mas que entra no enredo em momentos-chave. Por exemplo, quando Enrico busca desesperadamente um vidro de compota de
laranja, a preferida do irmão que agoniza no hospital, sabemos que estamos em meio à carência da guerra.

São vidas comuns, pequenas, como se diz, mas toda a complexidade de uma
existência humana está contida nelas. Se procurássemos na literatura um
equivalente para Zurlini, este seria Chekhov. Temos nele essa compreensão da fragilidade sem nenhuma pieguice. Um rigor que não esquece a compaixão. E uma empatia com o personagem que em momento algum esconde seus defeitos, suas eventuais torpezas, bem como aquilo que possa ter de nobre.

Enfim, são obras (livros ou filmes) que propõem uma experiência humana integral. Por isso – e não por acaso ou maneirismo –, os filmes de Zurlini tanto devem à pintura clássica. Há nessa tessitura visual delicada uma preocupação mais ética do que propriamente estética.

(Caderno 2, 1/8/2003)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.