Críticos de cinema: quem são, como pensam?
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Críticos de cinema: quem são, como pensam?

Luiz Zanin Oricchio

01 de setembro de 2020 | 14h52

Jean-Claude Bernardet: ícone da crítica de cinema no Brasil

Quer saber um pouco como funciona essa estranha profissão de crítico de cinema? Então assista à série Críticos, de Luis Alberto Cassol, oito episódios que começam a ser exibidos a partir de amanhã, dia 2, no Canal por assinatura Prime Box Brasil (veja serviço no final do texto). 

Cassol, cineasta gaúcho, entrevista 21 profissionais da área, inclusive este que escreve estas linhas. Entrevistados: Carlos Eduardo Lourenço Jorge, Celso Sabadin, Daniel Feix, Fatimarlei Lunardelli, Ismaelino Pinto, Ivonete Pinto, Jean-Claude Bernardet, Lucas Borba, Luiz Carlos Merten, Luiz Zanin Oricchio, Marcos Santuario, Maria Do Rosário Caetano, Mônica Kanitz, Pablo Villaça, Patrícia Kogut, Paulo Henrique Silva, Robledo Milani, Roger Lerina, Rubens Ewald Filho, Sérgio Alpendre e Suzana Uchôa Itiberê.

A série é composta de oito episódios, cerca de 30 minutos cada um. Os dois primeiros são chamados de “A decisão” e referem-se ao momento, estalo ou processo, que levou cada um dos profissionais a dedicar-se à crítica. 

O terceiro é chamado de “o conceito”. Cada crítico é convidado a explicar em que consiste sua atividade. Como o leitor já adivinhou, cada qual tem sua definição de bolso. Pode parecer imprecisão, mas seria mesma coisa que perguntar a artistas plásticos o que é a pintura, a escritores o que é a literatura, a atores o que é o teatro e assim por diante. Num território de subjetividade das artes e das ciências ditas humanas cada um tem sua resposta pessoal acerca do seu métier. Ou inspira-se em antecessores ilustres, como o francês Jean Douchet que definia a crítica como “a arte de amar”, título de seu artigo mais famoso (e também de um livro-coletânea de textos editado pelos Cahiers du Cinéma, publicação onde Douchet exerceu boa parte de sua atividade). 

O quarto episódio é sobre a influência que as críticas exercem, ou não, sobre a carreira de um filme. Nesse ponto, há certa convergência. A influência sobre os arrasa-quarteirões, os famosos blockbusters, é nenhuma. Já uma crítica negativa ou positiva pode influenciar, de certa maneira, o público de um filme “de arte”, destinado a plateias mais restritas. Mesmo assim, ainda há discordâncias. 

O quinto episódio compara a crítica dos veículos impressos com a da internet. Como se sabe, o advento da internet, com os blogs primeiro, depois com os vídeos do Youtube, provocaram um abalo sísmico sobre a crítica que se produzia até, digamos, o final dos anos 1990. Daí para a frente, tudo foi diferente, como diz aquela canção do Roberto. Hoje um “influencer” do Youtube pode alcançar milhões de “seguidores” e deixar no chinelo qualquer crítico, digamos, “tradicional”, que escreve no papel. Mas é desse jeito, número de likes e seguidores, que se mede a influência de uma crítica? A discutir. 

O sexto episódio é sobre os festivais de cinema e a proximidade entre realizadores e elencos que apresentam seus filmes e os jornalistas-críticos que fazem a cobertura desses eventos. Proximidade que às vezes se torna problemática, e mesmo áspera, em especial se as críticas produzidas no calor da hora não forem lá muito elogiosas. Todo jornalista com experiência na área sabe como é difícil administrar essa proximidade com os artistas e o necessário distanciamento exigido quando se escreve um texto crítico honesto. Cada um de nós tem sua estratégia pessoal para lidar com esse tipo de situação. 

O sétimo é sobre a mulher na crítica de cinema. Certo, tivemos antecessoras ilustres, como por exemplo Pola Vartuck, que escreveu no Estadão antes de Merten e eu. Mas são raras. No Rio, havia Susana Schild, que brilhava no JB e hoje escreve no Globo. Hoje elas são mais numerosas, mas ainda há muito que avançar. A nossa associação nacional (Abraccine) é presidida por uma mulher, Ivonete Pinto. E as mulheres formaram um coletivo feminino da crítica chamado As Elviras, muito atuante. O coletivo tem esse nome em homenagem a Elvira Gama, a primeira mulher brasileira a escrever sobre as imagens em movimento, ainda no século 19, numa coluna do Jornal do Brasil chamada Kinetoscópio

Por fim, o último episódio intitula-se “cinema e séries”. Refere-se às dificuldades de adaptação dos críticos de filmes à crítica de séries televisivas. “Falta tempo”, é a queixa generalizada. De fato, estamos acostumados a mais de 400 estreias/ano no circuito comercial. E com mais as mostras, festivais, retrospectivas, não sobra muito tempo para se dedicar às séries, a não ser de forma episódica. Um ou outro crítico discutiu a questão estética, que diz respeito, basicamente, ao tamanho da tela e suas limitações. Outros lembraram que as séries se tornaram uma espécie de refúgio do cinema adulto diante da juvenilização do cinemão comercial. Não foi lembrado – nem por mim – que as séries, tidas por novidade, são um formato mais velho que a Sé de Braga. Quem hoje já está no limiar da “melhor idade”, lembra na infância de séries de TV como Perdidos no Espaço, Os Intocáveis, Jeannie é um Gênio, Memórias de Winston Churchill e outras. No audiovisual, como na natureza, vale a antiga lei de Lavoisier: “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. 

 

SERVIÇO

SÉRIE DOCUMENTAL “CRÍTICA”

Estreia: 2 de setembro

Canal de TV por assinatura: Prime Box Brazil

Exibições inéditas: quartas-feiras, às 21h30

Último episódio: 21 de outubro

Reprises: sextas-feiras, às 11h; domingos, às 9h30; terças-feiras, às 12h30; e quartas-feiras, às 10h30

Temporada: 8 episódios de 30 minutos

Classificação indicativa: Livre

 

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