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Crise: primeiro passo de Bergman na tela grande

Luiz Zanin Oricchio

17 Fevereiro 2010 | 10h13

Causa sensação engraçada assistir a Crise, primeiro longa-metragem de Ingmar Bergman, e recém-lançado em DVD pela Versátil. Sentimento que tem muito a ver com o fato de conhecermos muito bem as grandes obras do diretor, como Morangos Silvestres, Gritos e Sussurros, Persona ou Cenas de Um Casamento, e ignorarmos tudo dos primórdios da sua arte. É o caso de Crise, que data de 1946. Dificilmente nele detectamos o artista que passou a ser conhecido, segundo o clichê, como “cineasta da alma”, depois de haver mostrado ao mundo esses filmes que fizeram dele sucesso de público e de prêmios.

Há um outro Bergman, que aparece antes desse a que nos habituamos. Um Bergman que trabalhava de maneira árdua como roteirista nos estúdios da Svenk Filmindustri e tinha já boa experiência no teatro, porém buscava oportunidade de dirigir seu primeiro trabalho no cinema. E ela surge com Crise, uma história que começa com narrativa em off e se situa numa pequena cidade do interior sueco. Nela vive uma garota com a pessoa que a criou. Tudo vai bem, até que chega a mãe verdadeira e leva a moça para a cidade grande, onde ela se apaixona por um tipo estranho, que é também amante da mãe, etc. Esse enredo, um tanto rocambolesco, tem desfecho meio conservador. Toca na oposição entre a vida estável na cidade pequena e o poder desagregador da cidade grande. Um tema romântico, no fundo, valorizando a espiritualidade ou os valores tradicionais contra os perigos do progresso. Ideias recorrentes, em vigor até hoje, mas sob nova forma. Se não pensamos mais em fazer esse tipo de oposição, pelo menos de maneira ingênua, sempre voltamos ao assunto do preço do avanço tecnológico em termos de valores humanos, ou mesmo do custo cobrado ao meio ambiente.

De qualquer forma, não é tanto a temática que parece envelhecida em Crise, mas a maneira de tratá-la que parece um tanto quadrada ainda mais para mente tão original como a de Bergman. Ele próprio não tinha a melhor impressão sobre esse trabalho, embora devamos dar o devido desconto ao que diz, porque não havia crítico mais implacável com o que fazia do que o próprio Bergman. Talvez por isso mesmo tenha ido tão longe em seus projetos. Por não dispor de uma dose razoável de autocomplacência nem ter grande preocupação em a agradar quem com ele trabalhava, Bergman pôde levar ao limite sua obra radical. Na época de Crise ainda estava longe disso.

É interessante ver como analisa o filme, em retrospecto. Na série de entrevistas que deu a três críticos suecos (em O Cinema Segundo Bergman, de Stig Björkman, Torsten Manns e Jonas Sima, Paz e Terra, 1977), Bergman diz que “o filme é ruim sob todos os pontos de vista”. Conta como embarcou no projeto. Um produtor, Carl Andres Dymling, havia comprado os direitos de uma peça “horrível e comercial” , chamada Moderdyret, algo como O Animal Materno e queria transformá-la em filme, de qualquer maneira. Vários diretores recusaram o projeto até que Dymling veio a Bergman e lhe propôs um acordo. Se Bergman fizesse a adaptação da peça, seu próximo projeto de filme seria financiado. E assim foi feito.

Bergman procedeu a essa adaptação em estado permanente de tensão e mau humor. O título “crise” poderia bem se aplicar ao que vivia no momento em sua vida profissional. Conta que uma única pessoa podia dirigir a palavra a ele enquanto conduzia esse trabalho indesejável – o ator e também cineasta Victor Sjöstrom, que mais tarde seria o professor Isaac Borg, protagonista de uma das obras-primas de Bergman, Morangos Silvestres. Bergman diz que nesse período infeliz de sua vida, Sjöström foi a única pessoa bondosa com ele. Acompanhava o trabalho quando Bergman lhe mostrava o resultado das filmagens do dia. Dava conselhos e tentava melhorar o astral do iniciante. “Foi graças a ele – que era então diretor artístico da empresa Filmstaden – que a filmagem não foi interrompida e o projeto abandonado”, diz Bergman. A tentação de largar tudo era constante e Bergman sabia que, se cedesse aos seus instintos, sua carreira de cineasta na Suécia estaria acabada, antes de ter começado. Indisciplinas como as que se sentia tentado a cometer não tinham vez no burocratizado cinema sueco de então.

Além de encarar um projeto pelo qual não tinha estima, Bergman ainda tinha de enfrentar o diretor da empresa, o ex-crítico e ex-cineasta Lorens Marmstedt, que não hesitava em tachar o trabalho de Bergman de amadorístico e incompetente. Dizia que o filme deveria ser interrompido, pois nada tinha a ver com cinema, era de um intimismo masturbatório, sem qualquer preocupação com o público.

Foi dessa forma que Bergman filmou esse primeiro trabalho, encontrando forças para chegar ao fim na própria teimosia e no apoio de Victor Sjöstrom. O engraçado é que, muito anos depois, fazendo o balanço desse período, ele se mostra agradecido para com Marmstedt, que o maltratou na ocasião: “Lorens me ensinou a ser objetivo, a olhar friamente, a examinar os planos, a ver se o efeito desejado foi conseguido, ou se a cena deve ser refeita. Segui essa lição nos seus mínimos detalhes.” Eis aí como uma convivência forçada e desagradável pode resultar numa lição de rigor.

Dessa maneira, sob a supervisão implacável de Lorens Marmstedt, Crise saiu um filme formalmente perfeito, embora rigoroso demais, o que acaba por engessá-lo. Nota-se, no entanto, que, mesmo em meio a circunstâncias tão negativas, Bergman de alguma maneira conseguiu colocar no filme algo que já fazia parte do seu toque pessoal. Há, em meio ao academicismo, planos excepcionais. E o personagem de Jack, um tanto mefistofélico e outro tanto ingênuo, não deixa de figurar entre as criações marcantes de Bergman. O restante todo pode ser previsível e pouco ousado, mas a figurinha cheia de truques que no fundo é um pobre-diabo não deixa ser bergmaniana em seu DNA. Enfim, o filme vale como registro do primeiro passo no cinema de um dos maiores mestres em toda a sua história.

(Caderno 2, 17/2/10)