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Criatividade fora de campo

Luiz Zanin Oricchio

20 de abril de 2010 | 09h07

O Santos mostrou que é possível fazer diferente dos outros e ter sucesso. Digo isso independentemente do desfecho do Campeonato Paulista. Pode ganhar o Santo André que eu não mudo de opinião. O jogo do Santos é bonito, ofensivo e eficaz. E isso é tudo o que pedimos do futebol; títulos são consequência do bom jogo e não premissas. Já em termos de conquistas, se o Santos seguir seu caminho será um dos favoritos do Campeonato Brasileiro que, disputado por pontos corridos, é o mais justo. Pode classificar-se para a Libertadores de 2011 e disputá-la com chance de vencer. É time em condições de fazer história.

 

Mas, para que possa fazer história, será preciso que seus dirigentes sejam tão inventivos quanto são os meninos dentro de campo. Qual é a regra quando se tem uma equipe como essa no futebol brasileiro? Desmanchá-la o mais rápido possível para lucrar com as transferências. O desafio é desacelerar esse processo e ir contra a “lógica” vigente. Fazer as estrelas renderem, aqui dentro do País.

É fácil? Claro que não. É preciso enfrentar muitas forças contrárias. Os próprios jogadores e famílias, que querem enriquecer cada vez mais e de modo rápido. Os “empresários”, que salivam a cada gol de Neymar e a cada passe de Ganso. As “parceiras”, donas de fatias dos jogadores e que não estão nos clubes por amor à arte. Querem o seu. Todos os querem o seu. Só o pobre do torcedor deseja apenas ver seu time jogar bom futebol e ganhar títulos. Esse descompasso de expectativas é o “x” da questão do futebol atual. Pelo menos em continentes economicamente periféricos, como América Latina e África, habituados a rifar, baratinho, seus talentos para a Europa e outros mercados.

Há todo um contexto internacional que favorece esse êxodo e os próprios países exportadores adotam legislações para facilitá-lo, como é o caso óbvio da Lei Pelé. Ela faz parte do business e, claro, muita gente, sobretudo intermediários, enriquecendo à loucura com o mercado dos jogadores, têm interesse em manter tudo como está. Daí porque é tão difícil opor-se à política de terra arrasada: qualquer reação contraria poderosos interesses econômicos.

Mas se quisermos ver por mais tempo o futebol bonito do Santos, e estimular outros times a seguir o caminho parecido, precisamos desatar de alguma maneira o nó. É a única maneira de trazer de volta ao futebol brasileiro o alto nível que ele um dia teve. É a luta do futebol-arte contra a cobiça, de placar ainda em aberto. Até agora, a ganância vence. De goleada.

O novo comando do Santos tem mostrado discurso moderno. Ok, palavras são importantes, mas valem mesmo são as atitudes. Vamos ver como se comporta no futuro. Como o time, pode botar adversários na roda e fazer história. Ou pode se conformar com a mesmice.

NA SELEÇÃO

Não sei se essa campanha de mídia por Ganso e Neymar terá efeito sobre Dunga e a direção da CBF. Outras não deram resultado, como a que mobilizou a opinião pública em favor de Romário em 2002. Felipão fincou pé e ganhou a Copa. Às vezes os teimosos são recompensados. Mas a dupla do Santos tem sua chance no problemático estado atlético de Kaká e no comportamento oscilante de Adriano. Não é impossível que, em função disso, Dunga repense seu conceito de grupo fechado.

Às vezes, a necessidade é a mãe da invenção. Você pega um técnico turrão e, pelas circunstâncias, ele é obrigado a rever ideias e inovar. É a esperança para termos um time menos previsível na Copa. A seleção brasileira não tem apenas a obrigação de vencer. Tem o dever de defender uma concepção de futebol. É depositária de uma tradição, que não precisa ser encarada como peça de museu.

No momento, P.H. Ganso e Neymar representam a linha evolutiva da tradição brasileira.

(Coluna Boleiros, 20/4/10)