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Craque na Europa? *

Luiz Zanin Oricchio

08 de maio de 2012 | 09h37

Quanto mais Neymar brilha, mais “especialistas” torcem para que ele vá logo jogar na Europa. Como explicar esse enigma? Em lugar de se regozijarem por termos um jogador desse nível no Brasil, querem vê-lo pelas costas o quanto antes. Resolvi entender as motivações dessa turma. Ou pelo menos tentar. Há três tipos muito claros entre eles.

1) O tecnocrático. Ele desfila boas razões (técnicas, claro) para fundamentar a opinião. Neymar não teria mais adversários à altura. O jogador só progride quando encontra desafios crescentes. Esses desafios aqui seriam impossíveis pois, como se sabe, é na Europa que se concentram os talentos. Se ficar por aqui, o craque acabará por se repetir e não desenvolverá suas potencialidades como o faria se estivesse jogando em um dos gigantes do continente europeu. Há nomes respeitabilíssimos que defendem esse ponto de vista, entre eles Mano Menezes, até agora o técnico da seleção brasileira. Para eles, a saída de Neymar seria boa para o jogador e, sobretudo, para a seleção brasileira, que então teria um atleta já tarimbado pela excelência europeia na Copa de 2014.

2) O torcedor enrustido. Esse, para não dar muito na vista, saca do bolso argumentos racionais, como os expostos acima, mas não consegue disfarçar o ressentimento. No fundo sabem que jogadores fora de série desequilibram as disputas (sobretudo contra o seu time). Aspira ao nivelamento por baixo, à mediocridade geral que transformaria os campeonatos em emoção pura, “pelo equilíbrio” das equipes. Neymar destoa dessa pasmaceira travestida de competitividade. Assim como destoam Ganso, Lucas e poucos outros. O ideal seria que fossem todos para os quintos dos infernos, ao invés de ficarem perturbando por aqui com seu futebol de qualidade.

3) O eterno vira-latas. Sempre que alguma coisa começa a dar certo, ele ressurge, e com força redobrada. Ele tem um pressuposto: o Brasil é um país que não presta. Se algo positivo surge por aqui, deve ser logo desqualificado. Se isso não for possível, dada a sua qualidade inegável, deve-se recomendar que saia logo do País e vá brilhar em palco digno do seu talento. Se o tal cidadão fora de série for um cientista, por exemplo, recomenda que se mude para os Estados Unidos, país onde se faz pesquisa a sério. No caso do futebol, o destino é sempre a Europa. A expressão complexo de vira-latas, você sabe, foi inventada por Nelson Rodrigues para definir o aparentemente invencível sentimento de inferioridade do brasileiro. É pior ainda: esse personagem alimenta o desejo secreto de que nada dê certo, nada funcione ou prospere, para que assim possa exultar: “Viu? Eu tinha razão”. Sentir que sua opinião é a correta parece ser uma das maiores paixões do ser humano. Ainda mais quando essa opinião se confirma como negativa. Vá entender… Mas a alma humana comporta esses desvãos.

Por sorte há também os que ficam muito contentes com a presença do talento entre nós. Acham positivo o desafio que representam e entendem que qualidade chama qualidade. O desafio de superar o melhor é que faz seus pares crescerem. Quanto mais craques houver, melhor o nível da competição e maior a probabilidade de que outros craques surjam.

* Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão

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