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Costa-Gavras no Brasil

Luiz Zanin Oricchio

23 de abril de 2009 | 16h17

Recebi e-mail do Festival de Recife (atual Cine PE), confirmando a vinda de Konstantin Costa-Gavras ao Brasil. Chega domingo e será o principal convidado do festival. Costa-Gavras foi um diretor obrigatório durante alguns anos e depois passou a ser descartado pela “intelligentsia” cinematográfica, sob o clichê de que “faz filmes progressistas com estética conservadora”. Isso precisa ser examinado e bem parece uma daquelas idéias prontas que nos economizam o esforço do pensamento. Eu, como ser político (ditadura, 68…essas coisas que não se curam), sempre gostei dos seus filmes. Z e Estado de Sítio são os meus favoritos.

Mas tive também uma experiência de horror e encantamento ao assistir Missing, Desaparecido que, se não me engano, venceu uma Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1982, dividindo-a com o filme turco Yol. Vi-o em Paris, já não sei mais em que cinema, e lembro de ter voltado para casa a pé, um tanto trêmulo pela emoção que o filme havia me produzido. Como esquecer Jack Lemmon como o pai que procura pelo filho desaparecido na noite da ditadura de Pinochet? Certo, vocês dirão, era a ausência do País, o contexto político da época, tudo isso influenciando meus sentimentos e nem tanto o filme em si. Concordo, em parte. O filme é ele e mais a sua circunstância, com devido pedido de desculpas a Ortega y Gasset por deformar sua frase. Mesmo assim, devo essa emoção a Costa-Gavras.

Muitos anos depois, tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente e acho que contei essa história sobre Missing a ele. Foi numa circunstância muito especial, em Havana, ano 2000, quando fomos convidados ao Palácio da Revolução para uma recepção de Fidel Castro. De vez em quando Fidel chamava o pessoal do cinema para essas festas. Foi uma experiência interessante, inclusive por presenciar uma conversa bastante animada entre Fidel e o grande diretor italiano Ettore Scola, comunista, porém crítico em relação a regimes autoritários.

Depois do almoço, saímos do palácio e resolvemos comprar charutos. Foi uma tarde das mais agradáveis. Thomas Farkas, Costa-Gavras, Marcelo Janot e eu percorremos várias charutarias em busca dos “puros” que todos nós, com exceção do Janot, cultuávamos. Demos com uma ótima charutaria em Miramar. Provamos alguns charutos, com café e rum, enquanto jogávamos conversa fora. Um ótimo papo, naquela maravilhosa e preguiçosa tarde habanera.

Vai ser legal reencontrá-lo no Recife. Se a badalação em torno dele não for muita, talvez voltemos a fumar um charuto juntos.

Por via das dúvidas vou levar na bagagem uns Montecristos que ainda me restam.