Costa-Gavras, ícone do cinema político
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Costa-Gavras, ícone do cinema político

Houve época em que o cinema de Costa-Gavras se tornou pivô de uma discussão: se sua forma era tradicional, como podia ser considerado um cinema revolucionário?

Luiz Zanin Oricchio

04 Junho 2018 | 15h53

Z, thriller político clássico

Leio matérias na imprensa (Globo e Estado) sobre Costa-Gavras, que será homenageado pela restauração do seu filme Z., um ícone do cinema político.

Costa-Gavras, ele próprio, foi, ou é, um ícone do cinema político. Para gente da minha faixa etária, foi um autor fundamental. Sua trilogia – Z. (1968), A Confissão (1970) e Estado de Sítio (1972) era referência para quem, como nós, vivia sob o tacão de uma ditadura militar. (Não existe nada de mais estranho para nós, que vivemos essa triste experiência por 21 anos, do que existência de gente, por imbecil que seja, pedindo intervenção militar.)

Em 1982 eu vivia em Paris e fui ver um filme de Costa-Gavras, Missing, que falava de um desaparecido em outra das nossas lamentáveis ditaduras latino-americanas, a do Chile. Lembro-me de ter saído tão abalado do cinema que não voltei direto para casa. Fui caminhando, pela margem do Sena, pensando na infinita tristeza dos nossos países. Naquela altura eu estava cogitando se deveria voltar para o Brasil ou tentar esquecê-lo de vez. Enfim, esta é outra história.

Anos depois conheci Costa-Gavras num Festival de Cinema de Havana. Fomos apresentados por Thomas Farkas, que era seu colega no júri. Eu cobria o festival para o jornal. Fomos a uma recepção em palácio com Fidel Castro e, depois dessa experiência única, decidimos ir comprar charutos. Passamos o resto da tarde, Costa-Gavras, Farkas, o amigo jornalista Marcelo Janot e eu percorrendo as “tiendas” de tabaco de Havana, experimentando os puros e bebericando rum. E, sim, conversando sobre o tudo e o nada, falando de cinema e de política. Acho que ficamos amigos, mas depois daquele festival não nos vimos mais. Minto, uma vez nos reencontramos no Recife, quando ele foi receber o prêmio do festival local.

De longe, continuei a acompanhar a trajetória de Costa-Gavras, que agora sabia ser presidente da Cinemateca Francesa e continuava a dirigir seu cinema político, com filmes como O Quarto Poder, sobre o jornalismo, e O Corte, sobre a prática da “reengenharia” empresarial, esta outra forma de opressão humana.

Houve época em que o cinema de Costa-Gavras se tornou pivô de uma discussão: se sua forma era tradicional, como podia ser considerado um cinema revolucionário? Bem, o debate tem ecos de Maiakovski e não nego sua pertinência. Mesmo assim, acho que havia má vontade em relação a ele por parte da parcela despolitizada da crítica, que hoje é majoritária. Seu cinema me parece bastante eficaz e trabalha com temas fundamentais da nossa existência em sociedade. É indispensável, diga-se o que se disser.

E, sim, Z. é um filmaço. A ser visto e revisto, sobretudo agora que reaparece em cópia nova.