As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cortina de fumaça

Luiz Zanin Oricchio

10 Março 2007 | 21h26

Aviso aos amigos que troquei temporariamente o campo pelo mar e vim para o litoral paulista, Guarujá para ser mais exato. Amanhã vejo um jogo de futebol em Santos e, na segunda, regresso à Serra do Japi, onde, acomodados em um umidor, deixei preciosos havanas me esperando. Sim, querido leitor, eu sei que o melhor fumo do mundo é cultivado em Pinar del Rio, mas o esplêndido Cohiba que fumei contemplando o pôr-do-sol na serra foi adquirido em uma tienda em Havana, com os impostos devidamente pagos à República de Cuba.

Outro leitor me pergunta por que não fumo um charuto nacional. Fumo, com muito gosto, e encontro grande prazer num Dona Flor, por exemplo. Aliás, o tabaco brasileiro tem boa reputação. Freud, dizem, ocasionamente fumava charutos baianos. E há um trecho de A Montanha Mágica, de Thomas Mann, em que um dos personagens oferece a outro um “brasil”. Creio que era um diálogo entre o protagonista Hans Castorp e seu primo, mas não tenho como verificar. Vale lembrar, também, que a mãe de Thomas Mann era brasileira, o que pode explicar um pouco a menção à procedência do charuto. Júlia da Silva Bruhns, ela se chamava, antes de se casar com o senador Mann e dar à luz meninos como Thomas e Heinrich Mann.

Mas divago. O que é preciso dizer é que, para o aficionado, o “puro” cubano é insubstituível, incomparável. Eu mesmo não tinha idéia disso, até fumar um deles pela primeira vez. Conto a história. Fomos, um grupo de amigos, almoçar na Bodeguita del Medio (comida medíocre, para turistas, mas o mojito é de antologia). Conosco estava o grande ator cubano Carlos Cruz, que chamávamos de Carlitos. Terminada a refeição, passa o garçom oferecendo charutos a quem quisesse (pagando, é claro). Agradeço e digo que não fumo. (E, de fato, tinha abandonado o cigarro havia muitos anos e, quando queria fazer alguma fumaça, lançava mão do meu fiel cachimbo Savinelli, que até hoje me acompanha). Carlitos insistiu. “Tente, é uma experiência e tanto para quem nunca fumou”.

Aceitei, escolhi um exemplar não muito longo, o garçom o acendeu para mim e comecei a fumá-lo. Deixei-me envolver pela fumaça, inalando com calma (tragar, jamais!), inebriando-me aos poucos. Um pensamento me cruzou a cabeça: “Como pude me privar deste prazer até hoje?” E, imediatamente, me converti à seita dos charuteiros. No dia seguinte, lá estava eu à caça de puros em Havana, na companhia dos outros membros da nossa confraria, Sérgio Sanz e Esdras Rubim, em especial. Nunca esqueci aquele primeiro puro, um Montecristo nº 4. Gosto de outras marcas, aprecio variar, sei reconhecer o valor do Cohiba, mas é ao Montecristo que retorno sempre e com prazer renovado.

Essa religião do havana gerou incontáveis histórias. Uma delas se deve, creio, a William Styron (se eu estiver errado, me corrijam, porque escrevo de memória). Styron fora convidado, com um grupo de jornalistas, para um jantar na Casa Branca com John Kennedy. Bem, é preciso lembrar que Kennedy era um apreciador de havanas e conta-se que, antes de decretar o embargo comercial a Cuba, estocou grande quantidade de puros para garantir o consumo futuro. H.Upmann era sua marca preferida e, no fim da refeição, ofereceu-os aos jornalistas. Discretamente, Styron acendeu um dos seus próprio charutos e guardou como lembrança aquele que Kennedy lhe dera. Era um souvenir e tanto e não merecia ser reduzido a cinzas. Afinal, ao oferecer charutos cubanos aos seus convivas, o presidente cometera um ato ilícito, violando um decreto que ele próprio havia assinado.

Quando Kennedy foi assassinado, em 22 de novembro de 1963, Styron achou que era hora de exumar aquele charuto guardado como relíquia. Acendeu-o e fumou-o em honra do presidente morto. Acho essa história linda.