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Corações Sujos

Luiz Zanin Oricchio

07 de julho de 2011 | 17h31

Entre 1945 e 1946, um grupo de japoneses residentes no Brasil recusava-se a aceitar que o Japão perdera a guerra. Acreditavam que a notícia da rendição aos Aliados era propaganda mentirosa e continuavam a sustentar que o Japão vencera, mesmo porque o imperador Hirohito era um deus e nunca na história o país havia perdido uma guerra. Com base nessa fé, hostilizam e chegam a assassinar compatriotas que aceitam a versão da derrota japonesa. O grupo radical chama-os de traidores, “corações sujos” – título do livro-reportagem de Fernando Morais, levado para a tela por Vicente Amorim. É esse o filme que abre hoje à noite, para convidados, o 4.º Festival de Cinema de Paulínia.

Divulgação
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Em conversa com o Estado, Amorim disse que encontrou no livro de Fernando Morais (Companhia das Letras, 2000) excelente ponto de partida para reflexão sobre a adequação e identidade, “temas que me são muito próximos”, diz. O livro era uma base de roteiro, porque se trata, no fundo, de uma grande reportagem. Era preciso, para transformá-lo em obra de ficção e não em documentário, criar personagens e enredos.

A situação histórica real, descrita por Morais, torna-se assim um extraordinário pano de fundo, sobre o qual se desenha o destino desses personagens.

A tragédia dos corações sujos tinha ainda outro atrativo aos olhos de Vicente Amorim. “Queria dialogar com o presente”, diz. “Detesto filme histórico com ar de museu; o passado tem de ser vivo, servir de reflexão para o presente”.

No caso, sintomaticamente, trata-se de uma história de intolerâncias cruzadas. Ao lado do fanatismo patriótico de parte da comunidade, havia a contrapartida da repressão sobre os imigrantes durante o Estado Novo e no imediato pós-guerra. Os japoneses não podiam ensinar seu idioma, cultuar a bandeira nacional e nem mesmo falar a língua em público. Tudo isso contribuiu para o isolamento da comunidade.

Amorim vê grande atualidade nesse episódio histórico do Brasil. “Vivemos uma época de recrudescimento de fundamentalismos”, diz, “e não me refiro apenas ao mais óbvio deles, expresso no conflito árabe-israelense”. É um pouco assim em toda parte. “Inclusive no Brasil, onde cresce a intolerância com minorias em nome de certa liberdade de expressão”. Amorim refere-se, com certeza, a ideias truculentas que circulam pela internet ou na TV e ganham certo charme porque, em tese, desafiam a camisa de força do politicamente correto. Os antagonismos se tornam maiores à medida que o diálogo se rarefaz e empobrece. O caso dos japoneses nos anos 1940 é, nesse sentido, exemplar.

E, por ser exemplar, Amorim percebeu que teria de trabalhar com elenco japonês e fazê-los falar em seu idioma. “O isolamento era, na base, uma questão de idioma, por isso o filme não teria sentido se os personagens falassem em outra língua que não o japonês”. Por isso, Amorim escalou elenco japonês, com atores conhecidos em seu país. Tsuyoshi Ihara é Takahashi, o fotógrafo envolvido na guerra aos corações sujos. Ele é protagonista de Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood. Eiji Okuda é o rígido coronel Watanabe, que comanda a vingança aos “traidores”. É um dos atores de teatro e TV mais famosos do Japão, assim como Takako Tokiwa, no papel de Miyuki, a esposa de Takahashi.

Na escolha do elenco nipônico pesou a questão da autenticidade da trama, mas também o aspecto comercial, já que o filme deverá ser lançado no Japão. No Brasil, a estreia é prevista para o mês de novembro.

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