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Coração Louco

Luiz Zanin Oricchio

05 de março de 2010 | 16h17

Há quem diga que Jeff Bridges é figura imbatível na corrida ao Oscar. Pode ser mesmo, a julgar por seu trabalho em Coração Louco, convincente e comovente como o cantor de música country Bad Blake. Com muitos anos de pé na estrada e um Mississippi de uísque de milho no fígado, Blake tenta impulsionar uma carreira em pleno declínio quando encontra a jornalista Jean (Maggie Gyllenhaal), por quem se apaixona.

Coração Louco tem o tom misto de filme de estrada mesclado a um romantismo decadente, de corte francamente corrosivo. Não são menos charmosos, também, os números em que Blake se apresenta em churrascarias e botecos fétidos, empunhando a guitarra e tentando tirar alguma coisa de um voz rouca, esculpida a álcool e tabaco.

Mas é preciso dizer que a atuação de Bridges, e também de Maggie, que é uma graça, não resumem a qualidade do filme, que deve muito à direção de Scott Cooper. É dela, a direção, a ideia de colocar Bad Blake contra o pano de fundo visual da América profunda, com suas estradas retilíneas, cortando desertos, que ele percorre com um carro que já conheceu melhores dias. Tudo faz sentido. Do rosto devastado de Bridges ao som country; da planície aos bares de quinta categoria; da mentalidade interiorana ao pequeno papel assumido por um cobra como Robert Duvall.

É possível, porém, que se possa dizer alguma coisa a respeito da vertente moralizante que a história toma a partir de determinado ponto. A par da simpatia do personagem, fica claro que Cooper desejou fazer uma advertência contra os malefícios do álcool. Nada contra – no plano da vida real. No contexto do filme, a solução encontrada parece, não diria inverossímil, mas um tanto enfraquecedora de tudo o que a precede. Entregar ao espectador um sentido pronto de apólogo moral parece não ter sido boa opção.

Obras sem falhas não existem. Ou são muito raras. Precisamos aprender a tirar dessas peças imperfeitas aquilo que elas nos podem dar. O clima, prazeroso e às vezes perturbador, de Coração Louco é suficiente para fazer dele um bom filme. Mesmo que preferíssemos um outro caminho para a trama.

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