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Convite à humildade

Luiz Zanin Oricchio

25 de abril de 2007 | 17h14

Amigos, minha coluna de ontem no Esportes do Estadão:

Os resultados das semifinais do Campeonato Paulista soam como um convite geral à humildade. Primeiro, para os assim chamados clubes grandes que, na prática, não se mostraram tão grandes assim: o São Paulo, eliminado, e o Santos, classificado, mas na bacia das almas, com o regulamento na mão, como se costuma dizer nessas horas.

Segundo, esses últimos jogos deveriam servir como meditação a todos nós que escrevemos sobre futebol. Não conseguimos prever nada, deveríamos admitir logo de saída. Podemos fazer discursos mais ou menos articulados e coerentes sobre vários aspectos desse misterioso jogo da bola, mas quando se trata de antecipar resultados, andamos nas trevas e nossas opiniões não passam de meros palpites.

Não conheço ninguém, mas ninguém mesmo, que tenha levado a sério a hipótese de que o São Caetano iria tirar o São Paulo e o Bragantino ofereceria tanta resistência ao Santos. Como é possível que aconteçam resultados tão extraordinários sem que nos espantemos com isso?

E, atenção, não foi apenas um jogo, no qual, como também se costuma dizer, tudo pode acontecer. Não. Foram dois jogos, ida e volta, 180 minutos para que os clubes com maior investimento, melhor elenco, mais títulos, mais camisa, técnicos mais badalados, melhor estrutura, mais tudo, pudessem impor seu favoritismo. Nada disso aconteceu, apesar de alguns grão-senhores da crônica terem pontificado que, em dois jogos, o time grande acaba por se impor, sem qualquer margem para erro.

Como se costuma dizer também, e para não perder a viagem já que esta coluna se dedica aos clichês do esporte, talvez seja hora de “mudar nossos conceitos”. O melhor time do campeonato, pelos pontos corridos, é o Santos. Ora, nos dois jogos das semifinais, o Bragantino jogou consistentemente melhor e esteve mais perto da vitória em ambos. O segundo melhor é o São Paulo, que por pouco não perdeu o primeiro confronto e saiu goleado no segundo jogo contra o São Caetano.

Andamos nos acostumando a tratar São Paulo e Santos como duas fortalezas do futebol brasileiro, e nada disso é fruto de delírio. Basta levar em conta os resultados dos dois nos últimos meses: ambos têm aproveitamento invejável. Por que então sofrem tanto no confronto contra os pequenos. Não sei. Talvez porque não haja diferença tão grande assim como pensamos entre uns e outros, pelo menos no confronto direto por decisão de título. A esta altura, quem se arriscaria a cravar que o Santos é favorito diante do São Caetano, justamente o time que melhor jogou as semifinais?

Pensando sobre esses jogos, lembrei-me do grande escritor Pedro Nava, de quem sou devoto. Nava escreveu maravilhosos livros de memórias e, quando lhe perguntaram para que lhe servia essa experiência, respondeu: “É como um carro que tivesse os faróis na parte traseira: ilumina tudo que ficou para trás, mas a estrada à frente continua no breu”. Assim é no futebol. Depois do jogo, temos tantas explicações. Mas, antes…

O SENTIDO DO GOL

Fizeram pesquisa pela internet para saber qual dos gols era mais bonito, o de Maradona ou o do Messi. Na Espanha e no Brasil deu Messi; na Argentina, Maradona. Explica-se. Messi, jogando pelo Barcelona marcou contra um adversário chamado Getafe. O de Maradona aconteceu numa Copa do Mundo, contra a Inglaterra, poucos anos depois da Guerra das Malvinas. Nos pés de Maradona, a guerra suja naquelas ilhotas ressoou na guerra simbólica da Copa. Cada gol é ele e mais a sua circunstância. Os argentinos sabem disso.