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Conversas com meu Jardineiro

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2007 | 11h58

Daniel Auteuil interpreta um pintor bem-sucedido, que deixa Paris e retorna à cidadezinha onde nasceu. Volta para sua casa de infância, cercada por um grande jardim. Precisa de um jardineiro e, para sua surpresa, vai encontrar esse profissional na pessoa de um ex-colega de escola (Jean-Pierre Darroussin). Eles passam a se tratar, amigavelmente, de Dupincel e Dujardin.

Conversas com Meu Jardineiro, de Jean Becker poderia, à primeira vista, parecer uma daquelas manjadas histórias dos seres diferentes que trocam experiências e lições de vida e se encontram em sua humanidade comum. Em geral, tende-se nesses casos para o politicamente correto, com a pessoa mais simples ensinando à mais “sofisticada” coisas que não se aprendem nos livros, etc. Mas é bom dizer, logo de cara, que Conversas com meu Jardineiro, evita tanto o bom-mocismo quanto os lugares-comuns. Até certo ponto, encaminha sua trama de maneira surpreendente.

Não que evite as oposições, algumas clássicas. Por exemplo, Dujardin, que dedica-se à jardinagem depois de se ter aposentado como ferroviário, tem uma família sólida, embora cheia de problemas. Alguns deles, materiais, de grana e necessidade de emprego para parentes. Já Dupincel, artista, está em via de se divorciar. É rico. Sua filha pretende se casar com um homem mais velho e ele não aceita o fato. Ao mesmo tempo em que recusa o noivo da filha, um homem mais ou menos da sua idade, Dupincel traz de Paris para uma temporada em sua casa de campo uma garota com idade para ser sua filha, a estonteante Magda (Alexia Barlier). A contradição não deixa de ser apontada pelo jardineiro.

Nessa história, que no fundo é o relato de uma grande amizade retomada na maturidade, o tempo joga papel fundamental. Tempo dos dois homens adultos, já no limiar da terceira idade, ao se recordar de quando eram crianças e viviam na despreocupação da infância. Há, portanto, uma idéia de fluxo no filme. Idéia que se expressa na maneira lenta como as cenas se sucedem, dando oportunidade para que os sentimentos e sensações cresçam e se imponham. Seria impossível contar essa história em ritmo vertiginoso, por exemplo.

Por outro lado, há essa reaproximação com a natureza por parte de um dos personagens. Joga-se com a oposição entre cidade x campo, quando Dupincel deve voltar a Paris para resolver negócios e o ritmo se apressa. Ao retornar à campanha francesa, ele se adoça e se alonga.
Dito dessa maneira, pode parecer que muito pouca coisa acontece no filme, o que seria um engano. Na verdade, acontece muita coisa e ela diz respeito, acima de tudo, ao que se passa na cabeça do personagem de Daniel Auteuil. Ora, existem muitos momentos na vida de um homem que lhe exigem um certo recentramento, por assim dizer. São as passagens: da adolescência à idade adulta, a chegada dos filhos, a morte dos pais, etc. A experiência da velhice iminente é outra, talvez a mais dolorosa. É esse o momento que vive o pintor, mas também o seu jardineiro. Cada um à sua maneira e com sua sensibilidade específica. Nesse rito de passagem, talvez o último da existência, cada um dos amigos ajudará o outro, na medida do seu estilo e possibilidade.

À sua maneira tranqüila, Conversas com meu Jardineiro é uma peça destoante no cinema contemporâneo. Joga com a sensibilidade e a emoção de maneira segura e nada chantagista, tendo como trunfo principal a classe de dois atores excepcionais, que não procuram nunca se sobrepujar aos personagens. Auteuil e Darroussin se subordinam aos seus papéis e deixam que eles façam seus percursos, de maneira natural, fluindo com um regato de água serena. Por isso, talvez, a única parte destoante desse belo filme seja seu desfecho, com uma estética e musicalidade um tanto excessivas.

Parece uma concessão gratuita de Jean Becker à sensibilidade do nosso tempo, para a qual a emoção deve ser imposta e não simplesmente exposta. Por sorte, tudo o que havíamos visto até então sobrevive às cenas finais e as coloca em segundo plano.

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