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Conversa com Candeias

Luiz Zanin Oricchio

09 de fevereiro de 2007 | 14h16

Amigos, como homenagem a Ozualdo Candeias, transcrevo uma entrevista feita com ele em fevereiro de 1994 e publicada no Caderno 2 do Estadão. O contexto é a realização de uma retrospectiva de sua obra no Centro Cultural São Paulo. Naquele tempo, o cinema brasileiro começava a viver a sua fase de “retomada”, após o desmanche durante do governo Collor. Na entrevista, Candeias fala, entre outras coisas, de um projeto que nunca realizou, o filme O Capanga.

Ozualdo Candeias é uma voz discordante em meio à euforia que que já começa a aparecer na classe cinematográfica com o possível renascimento do cinema nacional. O diretor, que ganha retrospectiva quase completa de sua obra no Centro Cultural São Paulo, acha que a situação continua mais negra que a asa da graúna. “Não adianta você ficar mendigando uns tostões para produzir e depois ficar com o filme encostado na prateleira”, disse ele ao Caderno 2. Candeias sabe do que fala. Seu último filme, O Vigilante, ganhador do Prêmio Especial do Júri no Festival de Brasília de 1992, continua praticamente inédito. Foi exibido apenas de passagem em Vitória e Curitiba, numa promoção das prefeituras locais.

E é só. A estética “primitivista” de Candeias (ele acha esse adjetivo “uma bobagem”) continua sem interessar aos exibidores. Ele está acostumado a isso. Apesar de certo sucesso inicial, principalmente com A Margem, filme de 1967 que o transformou em um dos queridinhos doa crítica underground, Candeias tem se habituado à posição de outsider do cinema nacional. Alguns dos seus filmes como Zézero (1974), Candinho (1976) e A Visita do Velho Senhor (1975) foram exibidos em circuito clandestino e lhe custaram problemas com a censura. Motivo: Candeias sempre se preocupou em registrar a saga dos descamisados. Gente que vive do lado escuro da vida e que, em tempos mais amargos, eram proibidos de aparecer nas telas. Passavam “imagem negativa do País”. Tanto é que o diretor se confessa cansado de mostrar essa faceta dura da vida nacional. Seu próximo projeto, O Capanga, vai mostrar um universo mais ameno, o da classe média. “Deve ser mais palatável para o público”, espera Candeias.

Caderno 2 – A mostra em sua homenagem abre com A Margem, filme que foi sucesso de crítica na época. Você acha que ele é a sua obra mais importante?
Candeias – Não . Todos são importantes. A Margem foi levado a sério porque foi feito ao arrepio do cinema americano. SEm gente conhecida, mostrava uma realidade brutal, retratada sem meias-tintas. Depois, o Cinema Novo já mostrava certo esgotamento. O cinema brasileiro já se reciclava naquilo que seria chamado de Cinema Marginal. Daí a acolhida da crítica.

Caderno 2 – Você tem sido chamado de cineasta primitivista. O que acha disso?
Candeias – Uma bobagem completa. Em A Margem, por exemplo, há todo um trabalho de reflexão sobre os movimentos de câmera, já que eu optava por usar uma narrativa subjetiva. Os menos avisados acham que é malfeito. . Mas isso é tolice intelectual. Se quiserem me chamar de primário, tudo bem, mas de primitivo, não.

Caderno 2 – Você tem recebido críticas assim atualmente?
Candeias – Meu filme O Vigilante foi exibido em Vitória. Um crítico de lá falou mal dos enquadramentos, disse que a câmera tremia e que o elenco parecia pessoal da favela. Acho ótimo que pareça mesmo. Eram eles que eu queria retratar.

Caderno 2 – Essa estética “suja”, vamos dizer assim, não pode ser creditada também à precariedade com que você trabalha?
Candeias – Olha, posso garantir uma coisa. Se eu tivesse recebido US$ 1 milhão no meio das filmagens, o filme teria saído do mesmo jeito. No meu trabalho eu coloco a miséria assumindo a sua função dramática. É uma opção.

Caderno 2 – Se é uma opção de vida, por que a mudança neste seu novo projeto?
Candeias – Sei lá, acho que a minha temática ficou meio fora de moda. Não tem mais gente interessada em ver miséria na tela. Então, em O Capanga eu quero mostrar alguma coisa de classe média mesmo. Vai ser um filme mais elaborado, com perseguição e locações no Brasil inteiro. Há alguma coisa de submundo. Só que agora é a Boca do Luxo e não a do Lixo.

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