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Contraplano – o que vale são as ideias

Luiz Zanin Oricchio

19 de agosto de 2013 | 10h29

 

O que se deve destacar de início no programa Contraplano, comandado por Miguel de Almeida é sua ambição intelectual. Num momento de estagnação constrangedora da vida cultural do País, o programa simplesmente ousa debater ideias. Apenas isso, ideias. E o faz com o auxílio do cinema, essa área da cultura, ou das artes, já quase completamente submergida na irrelevância dos blockbusters. Pois bem, Contraplano ousa reabilitar o cinema como forma de pensamento que permite lançar luzes sobre determinados desvãos da vida social. Discute como o cinema pode iluminar aspectos da vida como a cultura, o poder, a sociedade e o comportamento ao longo de 49 episódios, exibidos às sextas-feiras,no Canal Sesc/TV,  às 22h. Cada um deles terá aproximadamente 52 minutos.

No primeiro, o cineasta Ugo Giorgetti e o psicanalista Tales Ab’Saber discutem o tema do poder com o título Revoluções e Golpes. Abordam os filmes Revolução – a Verdade sobre Fidel Castro, de Victor Pahlen, A Batalha do Chile, de Patricio Gusman, Condor, de Roberto Mader, e Che, de Steven Soderbergh. Não importa a que conclusões chegam, mas simplesmente como levam à articulação de ideias políticas a partir dos filmes abordados. Por exemplo, A Batalha do Chile, como se sabe, é uma obra-prima do documentário contemporâneo. Tem, para a tragédia sul-americana no período das ditaduras, a mesma importância de Shoah, de Claude Lauzmann, para o esclarecimento do Holocausto. A perspectiva do cineasta Giorgetti e a do psicanalista Ab’Saber interagem e se completam. Fazem uma troca de ideias em que umas iluminam as outras. Não descartam o caráter especificamente cinematográfico da obra, considerando que A Batalha do Chile não teria a força de persuasão que tem não fosse também um filme extraordinariamente bem pensado e feito. Detalhe: apesar da “autoria” de Gusman, Batalha do Chile é uma espécie de trabalho coletivo, com imagens coletadas de diversas fontes. Prefigura o golpe por vir, e que encerraria, de maneira trágica a experiência socialista de Salvador Allende e da Unidade Popular.

Em outro programa, a ensaísta especializada em cinema e a historiadora Mary del Priori debatem um filme como O Outro Lado da Lei, do argentino Pablo Trapero. Para quem não lembra, é a história do rapaz que entra na polícia da província de Buenos Aires e sente-se induzido a praticar as pequenas corrupções que fazem a prática cotidiana da corporação. As ensaístas concluem que o problema da corrupção não se dá exclusivamente nas esferas mais altas da vida política, mas torna-se endêmica quando enraizada nos diversos estratos da sociedade. No caso do Brasil, não é incomum que uma mesma pessoa condene o mensalão e não hesite em praticar pequenos subornos que lhe facilitem a vida. É na filosofia do “levar vantagem em tudo” que reside a degradação da ética e não apenas na ação de políticos desonestos. É mais difícil pensar dessa maneira, mas também é uma maneira de perceber a realidade de maneira menos distorcida. E o cinema nos fornece uma via de acesso gratuita a esse tipo de iluminação.

Da mesma forma, Tadeu Chiarelli, especialista em artes plásticas, e Hugo Possolo, ator e dramaturgo, usam o mexicano E Sua Mãe Também, de Alfonso Cuarón, para debater a liberação de desejo das amarras da hipocrisia social. A história é a de dois adolescentes que saem em viagem com uma mulher mais madura (a magnífica Maribel Verdú) e aprendem duas ou três coisas com ela.

E, naquela que deve ser um dos programas mais interessantes da série, o filósofo Celso Favaretto e o poeta Geraldo Carneiro debatem a oposição entre Cinema Novo e Cinema Marginal, polêmica que ocupou corações e mentes brasileiros na virada dos anos 1960 para os 1970. Hoje pode parecer uma discussão acadêmica, mas, na época, refletia as contradições políticas do momento e municiava cineastas e intelectuais em suas posições de reação à ditadura militar. Obras mais diretamente engajadas como Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, e Os Fuzis, de Ruy Guerra, rivalizavam com outras como O Bandido da Luz Vermelha e A Mulher de Todos, de Rogério Sganzerla, e Bang Bang, de Andrea Tonacci.

O contraste entre o primeiro grupo de filmes e o segundo se dá entre uma época que se acreditava ser possível a revolução, e outra, do desencanto, em que as esperanças eram substituídas pelo desespero. O engajamento de uma corresponde ao escracho da outra. Se em Deus e o Diabo um personagem dizia que “o sertão ia virar mar”, em O Bandido da Luz Vermelha outro gritava que o Terceiro Mundo ia explodir. Duas percepções históricas distintas, duas sensibilidades diferentes, dois momentos nacionais opostos. Destacados com muito rigor e propriedade pelos debatedores.

Para resumir, Contraplano nos recorda que, muito além de entretenimento, o cinema pode ser fonte de prazer estético, ferramenta de conhecimento e prática da consciência social.

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