Contra a irritação, vá de Jorge Alfredo
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Contra a irritação, vá de Jorge Alfredo

Luiz Zanin Oricchio

11 de outubro de 2006 | 21h06

Acordei meio irritado hoje. E, como irritação eu prefiro deixar para a Fernanda Young (em especial depois de ver o filme escrito por ela Muito Gelo e dois Dedos de Água), resolvi tomar uma providência drástica: botei no toca-CDs do carro Bahia Jamaica, o disco de Jorge Alfredo e Chico Evangelista, que ganhei de presente de um dos compositores, o Jorge Alfredo. Depois de ouvir a primeira faixa, Amaralina, eu já estava calminho, calminho, como se tivesse tomado a maracujina recomendada pelo Rolando Boldrin. O disco é uma maravilha, com faixas como Bahia Jamaica, Oxum Mulher, Alô, Alô, Felicidade Morena e, a minha favorita, Música Alegre. Mistura reggae com ritmos brasileiros e é baiano até a medula.

Costumo dizer aos amigos que sou um paulistano civilizado pela Bahia. No pouco tempo que morei por lá aprendi muita coisa útil, a principal delas não me levar muito a sério. Assim, quando essa agitação neurótica da cidade se abate sobre mim, é a Bahia que eu procuro como refúgio. E, como não posso ir até lá, a música de Jorge Alfredo me serve de ponte. Fecho o vidro do carro e estou em Amaralina, Cidade Baixa, em Plataforma , Itapuã, como sugere uma das letras de Bahia Jamaica.

Por estranho que pareça, conheci Jorge Alfredo não na Bahia ou São Paulo, mas em Havana, essa cidade tão aparentada com Salvador. Eu, cobrindo como repórter o Festival de Cinema Latino-Americano. Ele, vim a descobrir depois, como participante do evento. Conversamos, como conversam sempre os brasileiros que estão no exterior e acabamos vendo juntos um show da divina Omara Portuondo (uma espécie de Elizeth Cardoso cubana) no Hotel Nacional. Saímos depois para bebericar pela noite de Havana. Falamos disso e daquilo, mas o Jorge Alfredo não me contou que era compositor e cineasta e estava, naquela época, terminando seu documentário Samba Riachão, sobre o grande sambista Riachão, autor de sucessos populares e figura conhecida em toda Bahia, amigo de Caetano e dos Novos Baianos. Com esse filme ele viria a ganhar o Festival de Brasília de 2001, o mais importante do País.

O fato de Jorge Alfredo não haver contado nada a um jornalista sobre o grande projeto de longa-metragem que estava tocando diz muito sobre o seu caráter. Essa modéstia, essa alegria de viver, essa atitude zen, seu senso de humor, estão lá nas músicas de Bahia Jamaica. Por isso fazem tão bem à saúde. Recomendo a todos estressados esse disco já veterano (é dos anos 80, creio) e que continua por aí, melhorando a vida de quem o escuta. Salve Jorge.

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