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Contos de Canterbury

Luiz Zanin Oricchio

09 de fevereiro de 2009 | 20h32

Os Contos de Canterbury reestreou, com cópia nova, no CineSesc. Isso quer dizer que as cores da fotografia de Tonino Delle Colli voltaram ao esplendor original. Baseado nos relatos de Chaucer, o filme faz parte, com Decamerão e As Mil e Uma Noites, da Trilogia da Vida de Pier Paolo Pasolini. Tríptico de exaltação da vida – quer dizer da sexualidade e da cultura popular –, em seguida renegada pelo diretor, que fechou sua carreira com o soturno Salò, filme violento e de maus presságios, porém incontornável.

Salò parece o exato contrário da Trilogia, filmes de vocação aparentemente solar, muitas vezes burlescos, e que expressam um momento particular da trajetória de Pasolini. Como Decamerão e As Mil e Uma Noites, também em Canterbury a ênfase recai sobre o elemento erótico. Pasolini era sensível a esse tipo de dimensão e não apenas pela maneira desabrida como enfrentava a questão da sexualidade. Parecia-lhe interessante contrapor momentos da História em que a sexualidade fora vivida de maneira diferente da nossa contemporânea moral judaico-cristã. Em especial, prévias ao moralismo da época vitoriana, que se estende pelas primeiras décadas do século 20 até ser contestada apenas durante a breve primavera dos anos 60. Assim, Pasolini vai em busca de dois narradores medievais, Bocaccio e Chaucer, um italiano e outro inglês, em busca dessas sensibilidades alternativas. No caso das Mil e Uma Noites, trata-se de obra coletiva, anônima, provavelmente surgida entre os séculos 13 e 14. Quer dizer, aproximadamente contemporânea das de Chaucer e Bocaccio.

Em todo caso, a Trilogia é tanto um descentramento como um comentário das graves questões que se impunham no início dos anos 70 – o desencanto com a falência da revolução dos costumes dos anos 60 e indícios de que o fascismo não havia sido extirpado de vez, como apressadamente se supôs no final da 2ª Guerra. Pasolini recorre a uma série de relatos em que a sexualidade está longe de ser “naturalizada” como na época moderna. Antes, o sexo aparece espreitando como força vital, que se insinua entre o pecado e a permissividade. São muitas as situações de triângulos amorosos, maridos enganados por esposas fogosas, espertezas de casais que querem fazer amor e veem-se impedidos por um motivo ou por outro. Não existe desejo sem dificuldades e, assim, o sexo aparece como força indomável que justifica esforços e riscos de todos os tipos, inclusive da própria vida.

Em termos de linguagem, o filme é bastante liberal, mesmo tendo sido feito 37 anos atrás. São comuns as cenas de nudez, inclusive frontal, com os personagens (alguns vividos por atores não-profissionais) expondo sem inibição os órgãos sexuais. Pasolini dá a essa fúria da sexualidade um padrão pictórico que remete às pinturas de Bosch e Brueghel, em especial nas cenas (de antologia) do Inferno. Canterbury, como os dois outros da Trilogia, é um filme libertário, canto à vida, mas que já traz um travo de prenúncio da tragédia que viria em seguida com Salò – representação da república fascista numa reciclagem de Sade.

(Cultura, 8/2/09)

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