Contos da Noite
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Contos da Noite

Luiz Zanin Oricchio

16 de julho de 2013 | 14h24

 

A animação Contos da Noite, de Michel Ocelot, traz de volta a velha e boa arte de narrar histórias. Arte em desuso, diga-se, pelo menos no cinema industrial, que vem habituando as plateias à sua dieta de narrativas ralas, cujo vazio é escondido pela avalanche de efeitos especiais.

Aqui é o contrário. Ocelot aposta muito na fabulação, no inesperado da narrativa capaz de envolver e emocionar o espectador. A forma usada na animação também é artesanal. Desenhos que confiam mais no encanto que no virtuosismo vazio da computação gráfica, de maneira geral insossos a cada megabyte.

Na verdade, Ocelot produz uma síntese entre o ancestral teatro de sombras chinês e a moderna tecnologia 3D, que lhe dá relevo e textura. Contra os personagens decupados no escuro, explodem cores suntuosas. A perspectiva é usada de forma rigorosa. Como o tom é de fábula, ajusta-se ao tom onírico do conjunto.

O polo central da ficção é dos mais simples. A cada noite, uma garota, um jovem e um técnico idoso se reúnem para inventar em conjunto histórias dignas de serem contadas. Em seguida, as tramas ganham vida diante do espectador. E os três inventores tornam-se personagens da ficção que eles próprios criam.

À excelência técnica e à criatividade do ponto de partida, junta-se uma qualidade de fabulação das mais interessantes. São seis histórias, algumas das quais decalcadas de contos universais, como a do lobisomem, que abre a série. Ocelot preocupa-se, também, com a diversidade geográfica e cultural das histórias, indo das Antilhas à China, porém evitando qualquer traço de exotismo. A diferença aparece nos sotaques em que o francês é escandido, mas evitando sempre a caricatura.

A afirmação da diferença é um ponto importante na recusa à uniformização. O destaque do que é diferente, por outro lado, fica sempre a passo do clichê discriminatório. Ocelot enfrente esse desafio no fio da navalha sem qualquer problema. Seus personagens são, sim, diferentes do padrão europeu dominante. Falam de modo diverso, comportam-se e pensam de outra forma. Nunca perdem, no entanto, o traço comum que faz de todos membros da espécie.

Esse tom respeitoso, porém não ingênuo ou politicamente correto, confere um tom humanista ao filme de Ocelot. Na verdade, é um princípio que se pode notar na continuidade de sua obra, moldada sobre esse compromisso ético. É um cinema do bem, sem ser boboca ou hipócrita. Ao contrário. Nesse tom fabular, Ocelot apresenta seus personagens, como o rapaz apaixonado que deve confessar à namorada o que acontece com ele nas noites de lua cheia. Ou a garota transformada em corça, o cavalo atacado por crises inesperadas de sentimentalismo, etc. Nada parece estranho.

E de fato não é. No mundo mágico da ficção, tudo se reduz à escala humana.

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