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Construção

Luiz Zanin Oricchio

24 de novembro de 2012 | 20h35

Como fazem as boas histórias, a de Construção não se entrega de imediato. Pede ao espectador que a acompanhe num périplo que vai do Rio a Havana, por motivos que não se deixam apreender de início. Vemos crianças das duas nacionalidades, cubanas e brasileiras e, aos poucos, vamos compreendendo como se fez essa ponte entre Brasil e Cuba.

Em seguida, na narrativa, vão entrando outras imagens, de outra época, o que é muito fácil de notar pela granulação diferente do filme. As texturas indicam as passagens do tempo, do presente ao passado e vice-versa.

A diretora Carolina Sá tenta juntar vários fios da sua vida nessa obra de estreia. Os restos de um casamento, crianças que se expressam em idiomas diferentes, um pai famoso que, por felicidade, cultivava o hábito de filmar cenas familiares e, portanto, deixou registros preciosos de imagens em movimento.

O documentário pode ser alinhado no filão recente de expressão em primeira pessoa. O artista fala de si, de suas circunstâncias familiares e históricas, sem rodeios. Serve-se da memória, ou dos fragmentos que dela tenha e procura reconstruir de maneira inteiriça um passado que lhe aparece como fragmentário. No fundo, é um Eu ficcional, embora se expresse num gênero facilmente definível como documental. Através desses restos, estabelece relações entre fatos próximos ou isolados, tece algo que se assemelha a uma obra de ficção, para melhor se aproximar da realidade. E, por que não dizer, da verdade?

Não por acaso, o título é Construção, um termo psicanalítico, como se sabe. Freud o usou em um artigo (Construções em Psicanálise) para dizer que o resgate da memória, sobretudo inconsciente, se aproxima ao trabalho do arqueólogo que, através das ruínas procura imaginar o que seria uma civilização inteira, viva e pulsante. A partir dos restos, ele constrói em sua imaginação. Mas essa construção nada tem de arbitrária.

O título do filme serve, também perfeitamente, ao personagem que começa a emergir das memórias – o arquiteto carioca Marcos de Vasconcellos. Um construtor de casas, de músicas (é dele o famoso Samba da Pergunta, com Pingarilho), e de utopias. Marcos fazia parte daquela geração de arquitetos com consciência social. Acusava as empreiteiras de destruir as cidades – em especial a sua querida cidade do Rio de Janeiro – entupindo-as de torres assépticas e banais. No final, diz a filha, ex-modelo e agora cineasta, ele era tido como louco, pois recusava projetos que não se enquadrassem na sua concepção harmoniosa da arquitetura. Arquitetos como Marcos de Vasconcellos, com sua visão humanística e global da profissão, são seres em extinção, como lembra o documentário. Hoje, o que predomina é uma arquitetura medíocre e predatória, alheia a qualquer consideração exterior ao lucro imediato.

Há esse lado em Construção. Recuperar a figura do construtor, que foi Marcos de Vasconcellos. Mas também há no filme essa relação bastante contemporânea do autor com seus afetos. Há quem diga que, dos anos 1960 para os 2000, o cinema trocou a política pelo afeto. As relações sociais ficam em segundo plano, assim como caem em desuso as grandes narrativas, o comunismo, a revolução, a crítica ao capitalismo, etc. O mundo se torna palco das pequenas narrativas. Da rua, passa-se à casa. Dos companheiros, aos amigos. E assim por diante.

Em sua simplicidade, Construção sugere que existem pontes entre um mundo e outro. Não interessa à autora ir além dos fatos que entretecem sua vida – o ex-marido músico, crianças, a existência em vários países. Mas há também, na contraluz, Cuba e sua presença no mundo nos anos 60, ao lado das utopias sonhadas por um arquiteto brasileiro dotado de consciência social. Também o cinema é uma trama desse tecido: através das imagens domésticas deixadas, a criança vê o avô que nunca conheceu.

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