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Conspiração Americana

Luiz Zanin Oricchio

08 de maio de 2012 | 21h29

Claro que Conspiração Americana, de Robert Redford, é um filme um tanto esquemático. Mas não partilho a ideia de alguns colegas de que seja desprezível. Me parece um filme entre razoável e bom. Vi-o com atenção.

A conspiração de que trata é aquela que vitimou o presidente Abraham Lincoln (1809-1865), assassinado no Ford Theater, em Washington, por um ator sulista, John Wilkes Booth. Este foge (morre dez dias depois, em tiroteio), mas várias pessoas implicadas no complô são presas e julgadas. Entre elas, Mary Surratt (Robin Wright), dona de uma pensão na qual os conspiradores se reuniam, entre eles John Surratt, seu filho. Todos os indícios são contra ela, mas um jovem advogado decide apostar em sua inocência.

Sim, é um drama de tribunal, baseado em fatos históricos. Como tal, tem muito de previsível, inclusive pelo que já sabemos sobre o funcionamento de tribunais americanos vendo filmes. Aliás, sabemos muito mais sobre o rito jurídico norte-americano que sobre o brasileiro. Mas, passemos sobre esse ponto, que renderia um tratado.

Também parece bem claro (embora isso, a meu ver, em nada diminua o filme) que Redford quer recordar fatos passados porém com um olho no presente.

Quando os conjurados foram julgados, a Guerra Civil estava no fim, mas não havia terminado. Era preciso dar uma lição exemplar aos implicados. Sentenciar sem piedade os assassinos (ou supostos assassinos) para satisfazer a sede de vingança da população (a parte vencedora da guerra) e virar a página da História. Dessa maneira, a defesa não tinha mesmo muita chance.

Redford olha para a História, para a Realpolitik que, naquele momento, se sobrepõe à justiça, e vislumbra o presente, Guantânamo, onde muitos presos, sem culpa formada, aguardam julgamento. Há uma aproximação subliminar entre o ato terrorista contra Lincoln, no século 19, e o ataque às Torres Gêmeas no século 21.

E é verdade: assim se trabalha com a história. Vendo o passado pelos olhos do presente, mesmo porque não existe outra maneira de fazê-lo. É o único jeito da fazer o passado atravessar o fosso dos séculos e “falar” a nós. É o que faz Redford, com um estilo acadêmico, às vezes maneirista, porém correto.

Honesto – o que hoje não é pouca coisa.

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