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Conselhos a um time de crianças

Luiz Zanin Oricchio

13 de abril de 2010 | 16h09

O Santos tem as qualidades e os defeitos de um time de crianças. As qualidades todos já aprendemos a conhecer nesses últimos meses: a criatividade, o ímpeto ofensivo, o futebol alegre e debochado, a alegria em campo, a eficácia traduzida em gols. Os defeitos, estamos reparando aos poucos e têm sido vistos nos clássicos.

Empatou no final com a Portuguesa, depois de um jogo muito duro. Contra o Corinthians, teve o adversário à mercê e quase tomou o empate. Idem contra o Palmeiras, com a diferença de que, neste caso, de fato levou a virada. No domingo, com tudo para liquidar o jogo contra o São Paulo por placar amplo, permitiu o empate e quase tomou a virada que complicaria sua vida nas semifinais. Achou um gol no final e venceu.

Pois, bem, o Santos que, pela campanha, é o melhor time do futebol paulista (não entro nessa de dizer “do futebol brasileiro” pois faltam termos de comparação com os outros Estados) já teria vencido há muito tempo pelo mais justo dos sistemas, que é o de pontos corridos. Mas, nessa fase de mata-mata, está dando sopa ao azar.

Pode se dar mal, embora continue com vento e, parece, sorte a favor.
Mas há algo a ser visto nesse time que encanta a todos. Uma espécie de falha no cristal, que precisa ser detectada e corrigida o mais rápido possível pelo competente Dorival Jr. Por que esse time consegue vantagens substanciais e não mostra a mesma capacidade para segurá-las? Claro, em parte isso se explica por mérito dos adversários. O Santos não joga contra o vento. E talvez haja alguma coisa nesse time que reaviva o espírito de competição dos oponentes e faz com que deem o melhor de si mesmos. Aconteceu com seus rivais paulistas. Em particular com o Palmeiras, que contra o Santos fez sua melhor partida e, domingo, com o São Paulo, que jogou seu melhor futebol deste ano no segundo tempo do jogo.

Mérito dos adversários, certo, mas também queda de rendimento do time do Santos em momentos cruciais das partidas. Por quê? Incapacidade de manter a marcação no campo do adversário? Pode ser, o jeito que o Santos marca é mesmo desgastante. Mas por que, nesses momentos, perde também capacidade de contra-atacar de maneira rápida? São fatos a serem levados em conta e estudados pela comissão técnica. Tenho a impressão de que existem outros fatores em jogo, estes de ordem psicológica. Há uma certa suficiência, que provoca acomodação depois da vantagem conquistada e, ao mesmo tempo, irrita e portanto desperta adversários que, em outras circunstâncias, talvez já estivessem nocauteados.

Parece que está também em ação a típica síndrome do “podemos decidir quando quisermos”, comum a muitos times bons e agravada neste caso pela imaturidade do elenco. Talvez haja certo fastio prematuro. Como se os meninos se cansassem do brinquedo antes do término do recreio. Dorival precisa explicar-lhes que o jogo dura 90 minutos. Às vezes se vê uma certa falta de concentração, que pode ser desmentida por todos, mas fica muito evidente em certas situações. Talvez possa ser detectada também uma dificuldade de tolerância à frustração: assim que o oponente reage, as coisas ficam mais difíceis e o time reage mal. Criança não gosta de ser contrariada. Falta um líder em campo – para os momentos complicados, porque liderar quando tudo vai bem é mole…

Essa conversa fiada pode ser resumida assim: falta maturidade. Nelson Rodrigues fazia uma recomendação aos moços: “Envelheçam, envelheçam.” Queria dizer que a juventude tem inúmeras vantagens, mas não a malícia que só a experiência traz. Como o jovem Santos é a melhor coisa que aconteceu ao futebol brasileiro este ano, eu faria um ajuste ao conselho do mestre. Envelheçam. Mas só um pouquinho.

(Coluna Boleiros, 13/4/10)