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Confiar: pedofilia e a pseudotransparência da Web

Luiz Zanin Oricchio

23 de setembro de 2011 | 09h30

Em 1990, Hal Hartley lançou um belo filme chamado “Trust, Confiança”. Agora, o diretor David Schwimmer apresenta um trabalho de mesmo nome (em inglês) que, na versão brasileira, virou “Confiar”. A temática é a mesma: o salto no escuro que se dá ao acreditar em seu semelhante.

Na era da informação online isso significa tomar ao pé da letra tudo o que diz alguém num site de relacionamentos, algo com que Hartley não poderia sonhar 20 anos atrás. Nem sempre (aliás, quase nunca) a pessoa que está do outro lado da linha é tal qual se apresenta. Isso é o que descobre a garota Annie (Liana Liberato), de 14 anos, que pensa ter encontrado seu primeiro namorado num bate-papo virtual. Após meses de conversa pelo computador, resolve encontrar-se com a pessoa ao vivo.

O bom de “Confiar” é que, por paradoxo, engana o espectador. Trai a sua boa-fé, por assim dizer. No começo, parece um filme teen meio bobinho, histórias de namoros previsíveis, misturadas com algum bullying escolar. Mas, a partir de certo ponto, a história vira e torna-se um drama familiar. Num primeiro momento, a confiança traída da menina atinge menos a ela do que a seus pais, Will (Clive Owen) e Lynn (Catherine Keener).

Corajoso, o filme de Schwimmer é, pelo menos em quase todo o tempo, ao apresentar de maneira pouco convencional o tema tabu da pedofilia. E esse é outro momento em que o filme nos trai, porque ficamos a pensar até onde ele levará a ousadia e em que momento regressará à zona de conforto comum nesse tipo de história. Pelo menos, ficamos em suspense quase todo o tempo. E se, afinal, ele se torna quase tão previsível quanto julgáramos que seria, o desfecho de novo nos joga numa área de incerteza, o que lhe devolve o interesse.

Pode-se adivinhar, por essas idas e vindas, o cuidado, as luvas de pelica que Schwimmer teve de usar para abordar assunto tão explosivo sem ser convencional e conservador, mas ao mesmo tempo preservando-se de uma ousadia que poderia parecer chocante demais para a moral média americana. “Confiar” joga com certa ambiguidade, tanto da parte da menina quanto do sedutor. Nenhum dos personagens é unidimensional por completo.

Tudo se resume à discussão do que é abuso sexual e até onde se pode dizer que houve sexo consensual ou estupro. Situação delicada, ainda mais quando envolve um adulto e uma adolescente. Seria interessante, a esta altura, lembrar um excelente filme de Marco Bellocchio, “O Processo do Desejo” (La Condanna, 1991), em que ele discute a mesmíssima coisa, apenas colocando dois adultos como protagonistas.

Bellocchio tenta especular se um ato sexual pode ser considerado estupro, e portanto crime, mesmo que não envolva violência física. A dúvida é se as palavras seriam tão sedutoramente eficazes que seu uso equivaleria a um ato forçado. Claro que aí a discussão é à europeia, bastante intelectual, refogada em caldo grosso psicanalítico. Envolve um debate sobre a força das palavras e também sobre o poder inebriante da arte (o caso se passa no interior de um museu).

“Confiar” é, digamos assim, muito mais pedestre. Precisa se valer de alguns elementos de ação para se afirmar. Por exemplo, inclui uma investigação, com o FBI tentando localizar o sedutor online por todo o país através de vestígios digitais e outros bem analógicos. Envolve também a culpa, tanto da menina como da família, enfim, traços inconscientes que vêm à luz nesse tipo de caso, mesmo que as pessoas exibam o ar da mais perfeita normalidade. Como é o caso de Will, publicitário de sucesso, que descobre, com o caso envolvendo sua filha, toda a fragilidade de si e da vida. Boa interpretação de Clive Owen, aliás.

“Confiar” não deixa de ser, também, interessante comentário sobre a nossa contemporaneidade. Costumamos ver no caráter um tanto anárquico da internet garantia da liberdade de expressão sob todas as formas. Daí que qualquer tentativa de discipliná-la ganhe logo rótulo de censura. Nada disso é falso, mas a liberdade total de postarmos o que bem quisermos, acobertados por pseudônimos, não é sinônimo automático de transparência. Pelo contrário: vivemos na neblina – e é bom sabermos disso.

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