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Condor

Luiz Zanin Oricchio

01 de maio de 2008 | 20h41

Operação Condor – esse foi o nome dado ao ‘convênio’ celebrado entre as várias ditaduras do Cone Sul, durante os anos 70, para troca de informações e, também, de prisioneiros. Uma dessas operações ficou famosa, a prisão em Porto Alegre dos uruguaios Lílian Celiberti e Universindo Diaz. O fato foi denunciado por repórteres da revista Veja, que, dessa maneira, salvaram a vida dos dois. Essa é a parte que nos toca. Mas, evidentemente, a ‘operação’ foi muito além disso. Representou um ponto alto na organização entre regimes ditatoriais num quadro mundial dominado pela guerra fria. Isto é, pelo enfrentamento, sem meios-tons, entre as duas superpotências de então. A briga dos grandes respingava no subcontinente.

Com 1h45, o documentário de Roberto Mader apresenta um painel bastante amplo dos acontecimentos daqueles anos. Toma partido, mas para não dizer que não ouve o outro lado, o ex-ministro dos regimes militares, Jarbas Passarinho e um dos filhos de Augusto Pinochet, entram com seus depoimentos. Não parecem muito convincentes, é verdade, mas estão lá, dando suas versões dos fatos e suas razões.

O filme tem importância histórica indiscutível. Contribui para recuperação de um dos aspectos negligenciados do período, a solidariedade policial entre ditaduras. E toca também na questão da responsabilidade dos atores sociais quando a história virou. Em países como Argentina e Chile, ex-ditadores como Videla e Pinochet foram processados e presos. No Brasil, optou-se por uma transição negociada. Em seu depoimento, Jarbas Passarinho fala a respeito da anistia brasileira, citando o então presidente-general João Batista Figueiredo. ‘Não se falava em perdão, porque perdoar significa reconhecer um erro; anistia significa esquecer.’

Ora, quando se filma um documentário sobre o assunto, ou se escreve um livro, o que se tem é a memória, o contrário do esquecimento. Foi nesse sentido a intervenção de Lílian Celiberti no debate do filme quando ele concorreu no Festival de Gramado, realizado em agosto de 2007. ‘Não podemos pensar no futuro sem recuperarmos e levarmos em conta o passado.’ Na opinião de Lílian, sabemos ainda muito pouco daquela época, temos impressões gerais, mas os detalhes ainda estão por apurar. ‘E, sobretudo, há um grande desconhecimento daquela época por parte das novas gerações, que não a viveram.’

Do ponto de vista da linguagem cinematográfica, Condor opta pela simplicidade. É filme de depoimentos e material de época, tirado de arquivos de imagens. Procura tratar o seu objeto de maneira clara, às vezes quase didática. O que se justifica no contexto de ignorância em que vivemos a respeito de nós mesmos. Como se sabe, a História não é exatamente uma paixão dos brasileiros. Quando Passarinho pede que se esqueça o que aconteceu durante a ditadura, talvez não se dê conta de que é isso mesmo o que já está acontecendo. Mas existe quem pense o contrário, que só se constrói um país quando se está atento para o seu futuro, mas também para a sua história. Nesse sentido, todo um período, doloroso e vital, como foram aqueles anos, ainda está por ser reconstruído. Em boa medida, os arquivos brasileiros daquele período histórico continuam fechados. A sociedade quer saber? Ou prefere ignorar?

(Caderno 2, 1/5/08)

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