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Como falar de livros que não lemos?

Luiz Zanin Oricchio

08 Março 2007 | 09h23

Esse é o título de um livro de bastante sucesso. Adivinhem onde? No Brasil ou em algum país subdesenvolvido ao sul do Equador? Não, amigos, na douce France, terra de Descartes, Montaigne, Hugo, Proust. O autor é um certo Pierre Bayard e ele próprio não é um qualquer: diz-se professor de literatura em Paris-VIII e psicanalista.

A obra destina-se a quem deseja falar (com gosto, pertinência e autoridade) sobre as obras de Flaubert e Proust, Valéry e Montaigne, Shakespeare e Joyce, sem necessariamente ter se dado ao trabalho de enfrentá-las. O argumento de Bayard é que tanto já se escreveu sobre obras clássicas como A Divina Comédia, Em Busca do Tempo Perdido e Ulisses que, na prática, tanto faz lê-las como ler ou mesmo folhear seus comentadores. Melhor ainda: essas obras estariam imersas num pudim crítico tão consistente que já teriam contaminado o senso comum. Então, dar-se ao trabalho de ler talvez seja a mais antiquada maneira de se aproximar delas. Bastam algumas informações “savantes” para que possamos comentá-las com propriedade em rodas sociais e, por que não?, utilizá-las, citá-las e analisá-las em nosso próprio trabalho.

O interessante, diz a reportagem da revista Le Nouvel Observateur onde pesquei essa nota, é que o livro (164 págs., 15 euros, Minuit) não foi detonado pelos intelectuais acadêmicos. Pelo contrário, foi acolhido com respeito e bom humor. Segundo o autor do artigo, Jean-Louis Ezine, é compreensível que seja assim. A prática, “denunciada” de maneira engraçada por Bayard, estaria já disseminada nos círculos intelectuais e nos meios acadêmicos franceses.

Uma pergunta do autor: será que os acadêmicos leram o próprio livro de Bayard? Provavelmente não. E isso não teria a menor importância se de fato o hábito de comentar sem haver lido já tiver de fato se tornado rotineiro.

Uma pergunta minha: será que precisamos do livro de Bayard no Brasil? Ou, pelo contrário, em matéria de opinar sem ler já desenvolvemos know how próprio, sem precisar importá-lo?