As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Como expliquei a crise no Brasil a um amigo português…

Um amigo, jornalista em Portugal, me pediu e a outros colegas, que lhe explicasse o que estava a suceder no Brasil. Compreendo que é difícil para um estrangeiro decifrar certas particularidades tupiniquins e então lhe mandei esse esforço de síntese . Que partilho como vocês.

Luiz Zanin Oricchio

07 de março de 2016 | 10h04

Um amigo, jornalista em Portugal, me pediu e a outros colegas, que lhe explicasse o que estava a suceder no Brasil. Compreendo que é difícil para um estrangeiro decifrar certas particularidades tupiniquins e então lhe mandei esse esforço de síntese . Que partilho com vocês. 

 

Não se via tanta tensão social no Brasil desde a época da ditadura (1964-1985).

De um lado, um governo fraco, tanto incapaz de domar a crise econômica como de articulação política.

De outro, uma oposição sem projetos, inconformada por ter perdido a última eleição, a apostar tudo na desestabilização do governo.

Dilma Rousseff não inspira confiança nas elites econômicas, empresariais e na mídia. Por outro lado, ao propor um ajuste econômico neoliberal, perdeu aliados nas classes trabalhadoras e desfavorecidos, que a levaram ao segundo mandato em 2014.

Alimentando toda a fogueira, há a Operação “Lava-Jato”, que apura crimes de corrupção na Petrobras e se assemelha à Operação Mãos Limpas da Itália. Tem o potencial para desmantelar todo o sistema político-partidário do país, mas, ao menos por enquanto, concentra-se apenas no Partido dos Trabalhadores (PT), o que alimenta acusações de ter politizado seu foco de apuração.

A “condução coercitiva” de Lula para depor teve valor simbólico. A Lava-Jato atingiu um mito das classes populares brasileiras, tido por muito como intocável. Houve distúrbios e enfrentamentos em várias partes do país.

O desfecho da crise é imprevisível. Não se sabe se Rousseff terminará o governo, se sofrerá impeachment ou renunciará. Mesmo que consiga ir até o fim do mandato, em 2018, será difícil retomar o controle da situação. Na prática, não governa mais, apenas reage. Há um vácuo de poder.

As ações contra Lula visam tirá-lo da disputa de 2018. Ele seria o único candidato viável do PT à presidência. Mas, vê-lo de volta ao poder é terrível pesadelo para as classes dominantes brasileiras. Não que Lula tenha mexido no patrimônio de quem quer que seja. Mas, em sociedade estruturada de modo tão desigual, sociedade de raiz escravocrata, como a brasileira, a mera inclusão social pode soar como blasfêmia, ou “desvio esquerdista”.

Tantas tensões geraram ódio social muito intenso. As classes médias urbanas não suportam mais o PT. O pretexto é a corrupção, mas o sistema político brasileiro não é ele inteiro corrupto, como afirma a mesma classe média? Por que então o ódio se voltar apenas contra o PT? Decerto porque, apesar de todos os seus defeitos (muitos e enormes), fez o único governo que adotou, de fato, políticas intensivas de inclusão social, que geraram tremendo ressentimento entre os mais abonados. Ou mesmo entre os remediados. Esse sentimento de ódio social vem sendo manipulado com habilidade por quem deseja fritar o governo.

A crise não tem prazo para acabar e menos ainda se pode calcular quanto tempo será empregado para sanar os danos provocados ao país. Danos econômicos, sociais e culturais. E quanto tempo levará para cicatrizar o ressentimento social que hoje vivemos?

O antigo “país cordial” vive dias de punhos cerrados e dentes à mostra.

PS. Talvez por esquecimento, talvez por vergonha, esqueci de dizer ao meu amigo que o Brasil não tem lá grande tradição democrática. Não lembrei de Getúlio Vargas levado ao suicídio em 1954 ou João Goulart deposto por um golpe civil-militar em 1964. 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.