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Comissão da Verdade

Luiz Zanin Oricchio

16 de maio de 2012 | 11h57

Para falar com franqueza, o estranho é que o Brasil tenha demorado tanto tempo para instaurar a tal Comissão da Verdade. Parece um procedimento óbvio para um País que passou por uma longa ditadura militar, durante a qual tantos crimes foram cometidos. A ditadura terminou em 1985. Em 1989 tivemos a primeira eleição direta para presidente. Desde então vivemos em plena democracia. É tempo demais para fatos traumáticos ficarem acobertados por um silêncio obsequioso.

A leniência do Brasil com criminosos fica mais evidente quando se compara a passividade local com o que aconteceu em países latino-americanos também vítimas de ditaduras como Argentina, Chile e Uruguai. Nestes, os criminosos do regime, mandantes e torturadores, foram julgados e alguns condenados. É bom frisar. Não responderam por seus crimes apenas policiais sádicos, cujos baixos instintos eram instrumentalizados pelo regime, mas os mandantes, dos superiores imediatos até as esferas mais altas, pois estes são os grandes responsáveis. Há ainda alguns desses graúdos cumprindo pena, como Jorge Videla na Argentina. Foi “presidente”. Está atrás das grades.

Essa diferença sempre me pareceu devida a razões culturais. Somos mais maleáveis (no mau sentido do termo). Mais transigentes. Mais “cordiais”. A própria transição para a democracia se deu de forma pacífica, negociada, de modo que não ficassem feridas abertas. O que é uma ilusão. Uma ditadura de 20 anos produz cicatrizes por gerações. Há ainda pessoas vivas, em plena atividade, que sofreram na pele (literalmente) os efeitos da ditadura. Seus filhos estão aí. Há pessoas que perderam os pais, como o nosso amigo e colunista Marcelo Rubens Paiva. Enfim, cicatrizes é que não faltam.

E elas não fecharão nunca se tudo não for dito, de uma vez por todas. É por isso que uma Comissão da Verdade, desde que trabalhe para valer, terá uma função terapêutica sobre a Nação, ao contrário do que dizem os que temem “revanchismo”.

Essa comissão expressa, sem tirar nem pôr, o direito inalienável de todos os povos que é o de conhecer a sua História. E isso inclui conhecer não apenas os fatos heroicos e positivos, mas também (e sobretudo) os mais dolorosos, aqueles que, justamente por isso, não querem e não podem calar.

Portanto, por mais que incomode a determinados setores, a Comissão da Verdade, até para honrar seu nome, deverá ir ao fundo dos fatos, por assim dizer. Investigar o destino dos desaparecidos, esclarecer as circunstâncias da sua morte e a localização dos corpos. E assim por diante. Precisa saber quem ordenava os atos da repressão, quem comandava a tortura como política de Estado. Precisa esclarecer os elos entre o aparelho da repressão e os colaboradores civis, ligação até agora pouco esclarecida, e por razões óbvias.

Depois de um longo tempo de silêncio e vergonha, a Nação precisa enterrar seus mortos. De maneira literal e também figurada.

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